Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Menina poeta

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 13/11/2014 00:00
Num abrigo de Brasília mora uma poeta de 15 anos. Um passarinho sobrevoou o Plano Piloto para me trazer um dos poemas da garota. Chama-se ABRIGO, desse modo, com letras maiúsculas. Diz assim:

;Eu moro no Abrigo
Sem lugar pra ter amigo
Me sinto infeliz.
Só queria ser feliz, ser normal.
Não queria ser trancada e vigiada feito animal.
Minhas tristezas, imaginação e ilusão de uma coisa tão profunda,
mas, me sinto tão imunda,
Por causa de uma coisa tão profunda, de dentro do coração,
Penso na solidão, na pobreza e destruição...
Até chegar num lugar,
um dia sei que vou chegar,
Que dá pra comemorar.;

Talvez a menina-poeta ainda não saiba, mas já encontrou o caminho da liberdade. De palavra em palavra ela vai imprimindo pegadas rumo à porta de saída. Mesmo que continue ;vigiada feito animal; até os 18 anos, quando terá de sair do abrigo, a poeta não é mais um bicho acuado. Tem uma fresta por onde escapar, a poesia. Não mais um gêiser contido (;uma coisa tão profunda;), mas um gêiser em explosão, rompendo a crosta da Terra.

A menina-poeta talvez não tenha lido ainda os textos do português Valter Hugo Mãe. O mais recente dos livros dele, A desumanização, conta a história de uma menina que perde a irmã gêmea para a morte e que perde a mãe para a profunda depressão. A garota, então, vai tentando habitar o mundo, ;chegar num lugar;, como escreveu a poeta do abrigo.
Diz-se solitária, a garota-poeta. Eremita, por forças da circunstâncias.

;Aprender a solidão ; diz a narradora de A desumanização ; não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos. Talvez não representemos nada, o que me parece impossível. Qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. Dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. E, se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. Estamos sempre à conversa com deus. A solidão não existe. É uma ficção das nossas cabeças.;

Seria a menina-poeta muito jovem para certas descobertas? A personagem do romance de Mãe tem 12 anos. E vai desvelando as cruezas da vida e da morte, com um trágico lirismo, como diz Ignácio de Loyola Brandão, na orelha do livro. A menina-poeta e Halla, a personagem de Mãe, têm em comum a adolescência e a profunda tristeza. Halla vai somando percepções, perigosas constatações (;não vale de nada a vida se não a jogarmos por inteiro;). Encontra preciosidades.
A menina-poeta também encontrou a pedra rara: ;As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça;, como Valter Hugo Mãe pela voz de Halla.

NÃO há solidão no reino da poesia, menina-poeta. Tristeza, sempre haverá. O que comemorar, também. Mas talvez você não tenha percebido que já pode festejar ; o seu mágico encontro com a palavra, em prosa ou poesia.

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