Sem crise com a balança

Sem crise com a balança

Elas ignoram o preconceito e os padrões de beleza. Com a autoestima elevada, aprenderam a lidar com o sobrepeso que não as impede de trabalhar, fazer amigos, namorar e se divertir

» ISA STACCIARINI
postado em 13/11/2014 00:00
 (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)
(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press)




Os braços e pernas estão longe dos padrões esguios cultuados pela sociedade moderna e imprescindíveis nas passarelas de moda mundo afora. Nem por isso, todos que estão acima do peso enfrentam uma guerra com os ponteiros da balança. Ao contrário, aprenderam a viver em harmonia. Com o índice de massa corporal bem acima do considerado ideal, eles levam uma vida saudável e feliz. Como nas telas do artista colombiano Fernando Botero, personagens com sobrepeso dançam, gargalham, choram, trabalham, travam diariamente as próprias lutas, amam e são amados, fazem sexo, sentem-se bonitos e vivem com os sabores e dissabores inerentes à vida.

Com 137 quilos, a administradora de imóveis Francineide Gomes Santos, 41 anos, se sente atraente. Mãe de um jovem de 18 anos, ela começou a engordar após o nascimento do filho. Ainda assim, Francineide lutou contra o ganho de peso com controle rigoroso de dieta, mas há oito anos assumiu o próprio corpo. ;Hoje, eu pratico dança de salão na academia e não faço controle severo de peso, como chocolate e pizza normalmente. Uso bastante decote e amo a região do meu colo e dos seios. Evito usar no trabalho, mas fim de semana e no dia a dia, eu sempre coloco uma blusa que me valorize;, ressalta.
Comprar roupa também deixou de ser uma tarefa contrangedora. Com um mercado diversificado, encontrar modelitos maiores faz parte da rotina de compras. ;Não sofro mais para encontrar roupas bonitas. Antes, comprava somente em sites, mas Brasília está investindo cada vez mais nesse universo plus size. Atualmente, só se veste mal quem quer. Tudo depende da autoestima da mulher e da cabeça de cada uma. Já sofri no passado, hoje vou para balada, danço e desperto interesse nos homens;, revela.

Quem convive com o corpo mais arredondado não está impedido de praticar esporte rotineiramente. A professora de educação física Dione Gumes, 44 anos, pesa 94 quilos e nunca abandonou os exercícios que são instrumentos de trabalho. A educadora chegou a ter 72kg a mais e alcançou a marca de três dígitos na balança, mas reduziu o peso por uma questão de saúde apenas com dieta e corrida de rua. Agora, a autoestima é tão alta que Dione acredita ter chegado no patamar ideal. ;Eu me sinto ótima e estou superbem. A saúde sempre foi meu foco e engordei muito por depressão. Demorei 8 anos para perder peso e, agora, não brigo mais com a balança. Coloco biquíni, e me sinto uma mulher gostosa e, quando acordo, eu olho no espelho e me acho linda;, se diverte.

Mãe de um casal de 16 e 14 anos, a professora da rede pública gosta de minisaia, salto alto e roupas justas. A preocupação com a saúde nunca termina. Ela participa de corridas de rua, faz academia, natação e dança. ;Não sou diferente de ninguém e uso o que eu quero. Namoro até muito e sou parquerada o tempo todo. Hoje, estou com uma pessoa há dois anos, mas há homens que gostam de mulheres gordinhas. Sou alegre, festeira, vivo por mim e me sinto bem;, afirma.

Bem-estar

O dia a dia de uma brasiliense acima do peso motivou um blog. Há quase dois anos, Kelly Brasil, 28 anos, criou uma página na internet para escrever sobre como viver bem com os quilos a mais, quais são as opções culturais oferecidas no Distrito Federal e como procurar o bem-estar com o próprio corpo. A publicitária pesa mais de 100kg e se diz totalmente bem resolvida. Com a autoestima elevada, ela cuida apenas da saúde, por meio de consultas regulares ao endocrinologista e ao nutrólogo. ;Às vezes, sinto nas ruas que algumas pessoas nos recriminam e não nos aceitam como somos. Ser gordinha afeta mais os outros do que a nós mesmos. Eu sempre fui assim, é o meu biotipo. Faço tudo que toda mulher faz;, destaca.

O blog, que leva o nome de Kelly, tem cerca de 15 mil acessos por mês de internautas de várias partes do Distrito Federal. Mas, ao contrário do que acredita Francineide, ela vê ainda dificuldade em comprar roupas. ;As lojas especializadas em mulheres plus size têm um preço bastante elevado. Geralmente, uso peças feitas por custureiras e compradas em lojas âncoras de varejo. Adquirir uma peça mais requintada demanda investimento financeiro;, explica. No entanto, a vaidade é o quesito principal da publicitária. ;Eu me sinto bonita, feliz e saudável;, diz.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação