Vidas recontadas

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Cinebiografias de Joãosinho Trinta e de Yves Saint Laurent são destaques da programação da semana no Brasil

Yale Gontijo
postado em 13/11/2014 00:00




É inegável encontrar pontos de contato entre as duas biografias que chegam aos cinemas brasileiros esta semana. As vidas do carnavalesco Joãosinho Trinta e do estilista francês Yves Saint Laurent têm em comum o fato de narrar a trajetória de dois personagens reais que venceram barreiras culturais e múltiplos preconceitos até triunfar nas atividades artísticas que desempenharam.

O cineasta Paulo Machline gestou o projeto de Trinta desde 2002, quando leu um artigo sobre o carnavalesco maranhense. Começou a desvendar uma vida de realizações do artista ao montar o documentário A raça síntese de Joãosinho Trinta (2009). Machline, como boa parte dos brasileiros com mais de 30 anos, conhecia as imagens emblemáticas dos desfiles do carnaval do Rio de Janeiro comandados pelo artista. ;Aquela imagem do Trinta andando de braços abertos pela avenida faz parte do nosso imaginário;, destaca o diretor.

Para montar o projeto, Machline recolheu uma série de depoimentos ao longo dos anos com pessoas próximas ao carnavalesco. E manteve encontos com Joãosinho para apresentar versões do roteiro . ;Tanto Joãosinho quanto o Pamplona (Fernando Pamplona, carnavalesco do Salgueiro) tiveram almas absolutamente generosas. Os dois são artistas populares e entenderam que eu também era um artista buscando contar uma história. Eles me deram total liberdade para tocar o projeto;, comenta o diretor.

Frases imortais de Joãosinho foram usadas no filme. A mais conhecida, ;O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual;, é apresentada como um ponto-chave do filme. Outras palavras, menos nobres, de autoria do carnavalesco encontram também espaço, como a proferida no momento em que ele estoura com sua equipe e dispara uma série de palavrões dentro do barracão. Foi uma das mais aplaudidas durante pré-estreia do filme no Festival do Rio, no lendário Theatro Municipal.

Contrariando os esquemas de scripts tradicionais de cinebiografias, o roteiro de Machline se inicia com a luta de Joãosinho para integrar o corpo de balé do Municipal e se encerra com a conclusão do primeiro desfile dirigido por Trinta no Salgueiro.

Machline chegou a cogitar que o foco da película fosse o desfile mais conhecido do carnavalesco, o parcialmente censurado Ratos e urubus, larguem a minha fantasia, apresentado na Beija-Flor em 1989, mas preferiu dar outro contraponto a sua história. ;Sempre faço a brincadeira do super-herói. Nos filmes, todos sabem que o Batman é o Bruce Wayne. Optei por contar a história da personalidade de uma pessoa pública;, comparou. Outros nomes do elenco são Mariana Nunes (como a porta-bandeira Isabel), Fabrício Boliveira (Calça Larga), Paulo Tiefenthaler (Pamplona), Paola Oliveira (Zeni), Milhem Cortaz (Tião) e Ernani Moraes (Germano).

Fashion Week
Bem mais badalada, a nova cinebiografia do estilista francês (de origem argelina) Yves Saint Laurent, de Bertrand Bonello, chega aos cinemas, depois de ser indicada à pré-seleção ao Oscar e ter causado relativa euforia no último Festival de Cannes. Gaspard Ulliel dá vida ao criador do império industrial, ao lado Jérémie Renier, que encena Pierre Bergé, empresário e parceiro de vida de Laurent.

Há poucos dias, o filme ficou mais conhecido, dada a presença do ator e do diretor no Brasil, ocasião em que estiveram no São Paulo Fashion Week e no Rio de Janeiro (para pré-estreia). Fixada entre os anos de 1967 e 1977, a sinopse contempla a aparição de modelos como Loulou de la Falaise (Léa Seydoux, de Azul é a cor mais quente) e Jacques de Bascher (Louis Garrel) ; amante de Yves e de Karl Lagerfeld ; na vida do mestre da moda. Com roteiro de Bonello, ao lado de Thomas Bidegain (de O profeta), o filme traz presenças ilustres de lendas vivas do cinema, como Helmut Berger e Dominique Sanda.
(Colaborou Ricardo Daehn)



;Aquela imagem do Trinta andando de braços abertos pela avenida faz parte do nosso imaginário;
Paulo Machline, diretor



Estreia pernambucana
A presença da morte é fio condutor na história do título pernambucano Ventos de agosto, de Gabriel Mascaro, outras das estreias da semana. A ficção de Mascaro, que teve sua estreia no Festival de Locarno, na Suíça, tem sido confundida com um filme etnográfico por focar sua história em latitude tropical e pela existência de paisagens paradisíacas ao longo do filme. Num vilarejo litorâneo do Brasil, um casal costuma mergulhar em

alto-mar em busca da ossada da mãe do catador de coco Jeison (Geová Manoel dos Santos), levada pela alta da maré. Em um raro exercício de poesia, Mascaro mistura trilha de rock pesado com a plasticidade do mar. O filme foi um dos concorrentes do 47; Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, do qual saiu premiado com o Candango de melhor fotografia e melhor atriz (Dandara de Morais).

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