Massacre em templo abala Jerusalém

Massacre em templo abala Jerusalém

Dois palestinos invadem templo judaico em Jerusalém e usam cutelo, machado e pistola para matar quatro rabinos.Netanyahu promete resposta com "punho de ferro", ordena prisão de familiares dos militantes e demolição de casas. Obama pede calma

RODRIGO CRAVEIRO
postado em 19/11/2014 00:00
 (foto: Ahmad Gharabli/AFP)
(foto: Ahmad Gharabli/AFP)







Um atentado palestino com requintes de crueldade, em Jerusalém Oriental, agravou a tensão no Oriente Médio, atraiu a repulsa da comunidade internacional e levou Israel a anunciar uma resposta com ;punhos de ferro;. ;Nós estamos no meio de uma batalha por Jerusalém, nossa capital eterna;, proclamou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que acusou o Hamas, a Jihad Islâmica e a Autoridade Palestina de disseminarem ;incontáveis calúnias e mentiras contra o Estado de Israel;. ;Eles dizem que os judeus estão contaminando o Monte do Tempo. Dizem que nós queremos destruir seus locais sagrados e que desejamos mudar os arranjos para oração lá. É tudo mentira;, acrescentou o premiê, que instou a população a não fazer justiça com as próprias mãos.

Por volta das 7h (1h em Brasília), os primos Ghassan Abu Jamal, 32 anos, e Oday Abu Jamal, 22, invadiram uma sinagoga ultraortodoxa no bairro de Har Nof . Armados com um cutelo, um machado e uma pistola, mataram quatro rabinos ; três de dupla cidadania israelo-americana e um britânico (veja o quadro) ; e feriram nove pessoas, cinco delas gravemente, antes de serem executados. No fim da noite de ontem, um policial atingido pelos extremistas também morreu.

;No meio da Shacharit (oração diária matinal), enquanto se envolviam no tallit e no tefillin (vestimentas tradicionais), quatro rabinos foram abatidos, quatro judeus puros e inocentes. Os animais que cometeram esse massacre vieram carregados com grande ódio procedente da incitação contra o povo judeu e seu país;, declarou Netanyahu, que ordenou a demolição de casas das famílias de Ghassan e Oday, no bairro de Jabal Mukaber, em Jerusalém Oriental. Ao menos 12 parentes dos extremistas, incluindo a mulher, a mãe e o irmão de Ghamal, foram detidos. As Brigadas Abu Ali Mustafa, a ala militar da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), reivindicaram a autoria do ataque, um dos mais sangrentos em anos.

O chefe de governo culpou indiretamente o presidente palestino, Mahmud Abbas. ;Sem enviar terroristas para que cometam atentados, ele deixa a incitação à violência correr solta no seio da Autoridade Palestina;, disse. Por sua vez, Abbas divulgou um comunicado por meio do qual ;condena o ataque aos fiéis judeus em seu local de oração e condena o assassinato de civis, não importa quem o faça;. Em uma medida polêmica, o ministro da Segurança Pública, Yitzhak Aharonovitch, anunciou que Israel vai aliviar os controles sobre o porte de armas, a fim de garantir a autodefesa. Por sua vez, o presidente norte-americano, Barack Obama, condenou ;o terrível ataque; e pediu ;calma; aos dois lados. ;Neste momento delicado em Jerusalém, é muito importante que os líderes israelenses e palestinos e que as pessoas comuns atuem juntos para reduzir as tensões, rejeitar a violência e buscar um caminho para a paz;, alertou. O FBI, a polícia federal dos EUA, vai ajudar nas investigações.

Por telefone, Ghazi Hamad, líder e porta-voz do movimento fundamentalista islâmico Hamas (leia Três perguntas para), afirmou ao Correio que o massacre em Jerusalém era esperado, mas negou envolvimento da facção. ;O que ocorreu hoje (ontem) foi o resultado da política maluca e de confrontação do governo Netanyahu, que se lança rumo a uma nova intifada;, advertiu. ;Netanyahu não pode ficar acima da lei internacional. Ele confisca nossas terras e impõe bloqueios a Gaza. Nunca desistiremos;, acrescentou. Sami Abu Zuhri, também porta-voz do Hamas, admitiu que o grupo conclama novas operações similares.

Caos e pânico
Mati Goldstein, oficial chefe do serviço de resgate internacional Zaka, foi um dos primeiros a chegar à sinagoga, cinco minutos após o ataque. ;Muitas pessoas gritavam, foi algo difícil de ver. É de partir o coração pensar nos restos mortais, na carne e nos corpos;, relatou ao Correio, por telefone. ;Os dois terroristas entraram com uma pistola e com um cutelo enorme. As vítimas não tiveram chance. Algumas foram abatidas a tiros e golpeadas várias vezes com a lâmina;, lamentou. Também socorrista, Yossi Frankel chamou de ;caos e de desastre; o que viu. ;Nenhuma palavra pode descrever o que testemunhamos lá. Sou voluntário há 11 anos. Foi o pior atentado que já presenciei. Os rabinos foram mortos a sangue frio;, contou, também por telefone. Milhares de judeus acompanharam os funerais.

Professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, Alon Ben-Meir não descarta que a extrema-direita pressione Netanyahu a uma resposta mais dura. ;A situação em Jerusalém está cada vez mais tênue, e qualquer reação importante dos israelenses apenas vai instigar mais violência por parte dos palestinos. Netanyahu faria bem se trabalhasse com Abbas para reduzir as tensões e prevenir mais derramamento de sangue;, comentou por e-mail. O especialista adverte que o alívio nas restrições ao porte de armas pode enviar uma mensagem errada aos extremistas. ;As forças israelenses deveriam reforçar a segurança em Jerusalém, e não buscar encorajar o vigilantismo entre a população;, concluiu Ben-Meir.



Três perguntas para



GHazi Hamad, vice-chanceler, porta-voz e líder do Hamas

Como o Hamas avalia o atentado contra a sinagoga em Jerusalém?
Isso é um desdobramento da revolta que há dois meses afeta Jerusalém. No mês passado, o governo e as forças de ocupação israelenses fizeram muitas coisas para atingir os palestinos em Jerusalém. Eles permitiram a expansão de assentamentos em locais sagrados, especialmente na Mesquita de Al-Aqsa. Permitiram aos colonos entrarem na mesquita. Um garoto palestino foi morto em Jerusalém. Ontem (segunda-feira), enforcaram um motorista de ônibus palestino. Todos os dias, vemos políticas malucas do governo israelense e dos extremistas de direita de Israel. Eles tentam expulsar os palestinos de Jerusalém e derrubam casas. Nas últimas duas semanas, os palestinos começaram a fazer protestos. Se Israel não parar, isso vai virar um novo levante. Não se pode ter muita paciência por muito tempo.

Mas esse ataque foi uma
operação do Hamas?

O Hamas não tem responsabilidade sobre a ação em Jerusalém. Mas isso é uma confluência natural, um resultado dos crimes israelenses contra nosso povo.

A terceira intifada já começou?
Os nomes ;intifada;, ;revolução; ou ;levante; são errados. O que existe é uma confrontação à ocupação. Precisamos de uma batalha contra essa ocupação até estabelecermos nosso Estado soberano. Nós esperamos que a batalha continuará. Espero que a situação se deteriore, especialmente em Je

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