Cessar-fogo na agenda

Cessar-fogo na agenda

A guerrilha das Farc confirma a captura de um general e recoloca a suspensão bilateral das hostilidades na pauta dos diálogos de paz, suspensos pelo presidente Juan Manuel Santos

postado em 19/11/2014 00:00
 (foto: Enrique De La Osa/Reuters)
(foto: Enrique De La Osa/Reuters)




Após uma sequência de declarações desencontradas, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) confirmaram ontem que têm em seu poder o general Ruben Alzate, capturado no domingo no departamento de Chocó (veja mapa). A confirmação foi feita em Havana pela delegação da guerrilha nas negociações de paz com o governo do presidente Juan Manuel Santos ; que declarou o processo suspenso até a libertação do oficial e de dois acompanhantes. Os comandantes rebeldes que falaram na capital cubana insistiram na necessidade de colocar na agenda um cessar-fogo bilateral.

O sequestro de Alzate coloca em risco a continuação dos diálogos, que hoje completam dois anos. O El Tiempo, porém, citou fontes próximas que viam esperanças de uma solução breve para o impasse. Pablo Catatumbo, um dos porta-vozes das Farc em Havana, afirmou que a organização está pronta para encontrar uma ;solução sensata e rápida;.

O comandante guerrilheiro, porém, salientou que a saída depende do diálogo. ;Está nas mãos do presidente Santos. Estão na Colômbia todos os comandos intermediários que podem solucionar o problema;, observou. Catatumbo aproveitou para criticar a recusa do governo a discutir o cessar-fogo. ;Isso geraria um ambiente mais tranquilo;, considerou. O porta-voz ressaltou ainda que o general foi ;capturado no exercício de suas funções e no teatro de operações (militares);.

Em meio a ponderações de setores políticos preocupados em preservar os diálogos de Havana, o ex-presidente Álvaro Uribe, que nos oito anos de mandato adotou uma política de guerra total e hoje lidera a oposição, acusou Santos de mentir para a população com as conversações de paz e exigiu a revisão dos termos do processo. ;Fizeram-nos acreditar que o governo controlou o terrorismo. Mentem: o terrorismo voltou a controlar muitos territórios da Colômbia;, afirmou, em entrevista ao El Mundo.

Desencontros
O dia começara, em Havana, com outro porta-voz das Farc afirmando que não podia confirmar se o general Alzate estava em poder do grupo. Pastor Alape ; que, como Catatumbo, integra o secretariado (alto comando) da guerrilha ; criticou o governo pela ;decisão precipitada; de suspender as conversações. Referiu-se à crise no processo como produto ;da vontade do Estado de negociar em meio ao conflito; e argumentou que situações vividas no cenário de guerra não cabem aos negociadores. ;Temos um mandato concreto, que é buscar um acordo.;

Pouco depois de Alape falar à imprensa, o Bloco Iván Ríos das Farc, que atua na região de Chocó, publicou comunicado na internet assumindo a autoria do sequestro. O texto relata que unidades guerrilheiras interceptaram a embarcação que transportava Alzate no Rio Atrato, no povoado de Las Mercedes. O general estava acompanhado pelo o cabo Jorge Contreras Rodríguez e pela advogada Gloria Urrego, que também foram raptados.

;Apesar de estarem todos à paisana, foram facilmente identificados;, diz o texto, que destaca a posição do oficial no comando da Força-Tarefa Titã, que combate as Farc na área. ;Temos um compromisso com a integridade dos prisioneiros e a respeitaremos na medida do que nos permitir a ira militar;, adverte o comunicado, em referência velada a uma tentativa de resgate pela força. ;Lembramos, porém, que estamos subordinados a decisões das instâncias superiores (da guerrilha).;


Análise da notícia

;Maldição;
da trégua

; Silvio Queiroz


Cessar-fogo e rompimento de negociações são dois elementos que costumam colidir de frente na história das tentativas ; até aqui frustradas ; de resolver pacificamente o conflito entre as Farc e o Estado colombiano. É o que parece se repetir com a captura do general Rubén Alzate, em momento de ;vai ou racha; para as conversações de Havana. Não por acaso, os dois integrantes da delegação rebelde que falaram sobre o episódio remeteram à questão do cessar-fogo.

No processo conduzido entre 1999 e 2002 com o governo de Andrés Pastrana, foram repetidas as ocasiões em que algum episódio de violência provocou crise entre as partes e tornou inviável a abordagem do tema da trégua. Prevaleceu uma decisão de Estado, firmada desde o fracasso das negociações de 1984-1986, de o Exército só aceitará um cessar-fogo em troca da deposição de armas.

No caso do último domingo, outra peça-chave está envolvida: ao longo de meio século, as Farc rechaçaram qualquer proposta de abrir conversações fora do país. Debilitadas na última década, aceitaram agora dialogar em Cuba.
O trunfo de ter um general em seu poder permitiu aos comandantes guerrilheiros presentes em Havana recolocar em pauta ambas as questões.



Perguntas em série

Persistem dúvidas e suspeitas em torno das circunstâncias em que o general Rubén Alzate foi capturado pelas Farc

Qual era o propósito do deslocamento de Alzate pelo Rio Atrato?
As Forças Armadas informaram
que o general visitaria uma
instalação energética, mas
o jornal El Tempo afirma que o
militar ia se encontrar com líderes regionais, e pode ter sido
atraído a uma emboscada.

Por que o oficial estava vulnerável?
Os relatos sobre o incidente indicam que Alzate dispensou escolta e se dirigiu ao povoado de Las Mercedes de bermudas e desarmados. O militar que pilotava a embarcação e o cabo que o acompanhava também estariam à paisana e sem armas.

As Farc sabiam do deslocamento?

Segundo o piloto, que escapou do sequestro, o general e os acompanhantes foram surpreendidos por homens armados quando chegaram ao povoado, a meia hora (de barco) de Quibdó, a capital de Chocó. Não está claro se os guerrilheiros faziam patrulhamento ao acaso ou se esperavam pelo grupo. Moradores afirmaram à imprensa que não esperavam a visita de um militar.

Como o piloto escapou?
Sabe-se que o militar que conduzia a embarcação decidiu retornar, mas não está claro se ele conseguiu fugir, embora desarmado, ou se teve permissão dos guerrilheiros, embora isso tenha permitido que o sequestro fosse relatado mais rapidamente ao comando militar em Quibdó.


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