Procriação selvagem

Procriação selvagem

Ao observar o comportamento de chimpanzés durante 50 anos, cientistas dos EUA concluíram que as fêmeas preferem os machos que as agridem antes de entrarem no cio

» Vilhena Soares
postado em 19/11/2014 00:00

Além de comum, a violência entre macacos tem uma ligação forte com rituais de reprodução. É o que mostra um estudo norte-americano publicado na revista Current Biology. Cientistas analisaram como um grupo de chimpanzés se comportava quando procriava e se as ações tomadas por eles durante o ato influenciavam na herança genética. O grupo chegou à conclusão de que os machos que batiam nas fêmeas quando elas não estavam no cio conseguiam ter mais filhotes do que aqueles que as agrediam no ápice da frase reprodutiva. A prática identificada pode servir como uma estratégia desses animais para conseguir aumentar o número de descendentes.

;Houve vários grandes estudos encontrando evidências a favor e contra a presença de coerção sexual em chimpanzés selvagens. Temos acesso a atribuições de paternidade geneticamente determinadas desde 1995 em nossa comunidade de estudo, o que nos permitiu investigar a presença desse comportamento usando dados genéticos de uma grande população. Pensamos que isso poderia trazer uma contribuição significativa para o debate;, justifica ao Correio Joseph Feldblum, autor principal do estudo, antropólogo e pesquisador da Universidade de Duke.

Os chimpanzés machos são conhecidos por agredir as fêmeas, mas estudos anteriores não conseguiram definir se essa atitude seria benéfica ou maléfica para a relação entre os dois gêneros. Com o intuito de esclarecer essa dúvida, Feldblum e a equipe liderada por ele resolveram acompanhar de perto uma comunidade desses animais no Parque Nacional de Gombe, na Tanzânia.

Com as análises de comportamentos observados durante 50 anos e os testes genéticos que apontaram a paternidade dos filhotes, os cientistas concluíram que os macacos que agrediam as fêmeas quando elas não estavam no cio obtiveram taxas de paternidade muito maiores do que os chimpanzés que cometiam os ataques durante o período de reprodução das parceiras. Os especialistas acreditam que essa seja uma estratégia de intimidação dos machos.

;As fêmeas de chimpanzés acasalam promiscuamente com a maioria dos integrantes de sua comunidade durante cada ciclo estral (cio). Dessa forma, nossos resultados sugerem que a agressão, especialmente a que ocorre a longo prazo, é usada para intimidar as fêmeas, seja para o acasalamento com o macho agressor, seja para evitar o acasalamento com outros, seja para atender ambos os fatores;, explica o autor.

Hierarquia
Para Maria Adelia Borstelmann, pesquisadora do Laboratório de Ecofisiologia e Comportamento Animal da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o estudo norte-americano mostra resultados muito interessantes e novos quanto aos hábitos dos chimpanzés. ;Os pesquisadores conseguiram chegar ao fundo da questão sobre agressividade e paternidade. O comportamento violento dessa espécie sempre intrigou estudiosos, e é interessante mostrar como funciona a hierarquia dentro desse círculo social. Macacos que se impões mais conseguem ter mais sucesso em reprodução por conta desse comportamento;, destaca.

Borstelmann chama a atenção para outro ponto importante do trabalho: a capacidade das fêmeas de ;preferir; os machos que já as atacaram. ;O fato de ela conseguir lembrar quais foram os chimpanzés que a agrediram antes do período fértil faz com que priorize esses machos ;dominantes; para reproduzir. Isso faz com que a estratégia desses macacos mais experientes funcione;, acrescenta a especialista.

Diferente dos humanos
Para os cientistas, não é possível equiparar esse ritual de acasalamento dos macacos com os da espécie humana. A diferença quanto ao comportamento das fêmeas dos dois grupos é um dos fatores cruciais para essa distinção. ;O contraste gritante entre o chimpanzé e o comportamento de acasalamento humano é que as macacas fêmeas acasalam promiscuamente com a maioria dos machos durante os ciclos, enquanto as fêmeas humanas não fazem isso;, destaca Feldblum. ;Desse modo, o sistema que favorece a coerção do macho em chimpanzés não está presente em humanos.;

Borstelmann também acredita que esse comportamento peculiar dos chimpanzés não permite fazer comparações entre as duas espécies. ;Temos estruturas diferentes, já que a fêmea dos primatas é promíscua e isso acontece em qualquer fase da vida, envolvendo todo o ciclo reprodutivo. Trata-se de uma diferença grande em termos de ritual que faz com que a comparação seja algo muito perigoso;, complementa.

A pesquisadora da UFRPE destaca ainda a importância de trabalhos que esmiuçam o comportamento animal por meio da observação dos hábitos. ;Muitas pesquisas que contam com o monitoramento dos animais têm surgido. Antes, elas não tinham o mesmo valor de hoje, não eram consideradas importantes. Felizmente, isso mudou e muitas descobertas surgem graças a esse tipo de trabalho.;

Os estudiosos de Duke darão continuidade às observações. ;Espero investigar a eficácia de uma ampla gama de táticas reprodutivas masculinas, incluindo mais comportamentos sociais que podem influenciar como os machos procriam;, adianta Feldblum.

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