Curta-metragem

Curta-metragem

Maior Botafogo x Flamengo de todos os tempos foi decidido em 38 minutos e começou a ser escrito pelo filho do capitão Júnior. Final do Campeonato Brasileiro de 1992 teve barril de chope, churrasco polêmico, acidente no Maracanã e título rubro-negro

Marcos Paulo Lima
Marcos Paulo Lima
postado em 19/11/2014 00:00


Um gesto espontâneo de criança ou a imponência de um pai de família experiente diante de um elenco jovem e de uma diretoria deslumbrada foi capaz de mudar o enredo. Leovegildo Lins da Gama Júnior e seu herdeiro Rodrigo tiveram papéis determinantes no maior clássico de todos os tempos entre Botafogo e Flamengo ; a decisão do Brasileirão de 1992.

Aos cinco anos, Rodrigo, filho do craque Júnior, começou a escrever o capítulo do quinto título nacional rubro-negro ao provocar o pai. ;Eu estava em Pescara (Itália) no meu último ano de contrato. Um dia, o Zico me deu uma fita com os gols dele. Eu não sei como, o Rodrigo conseguiu colocar no videocassete, assistiu e perguntou: ;Quando eu vou ver o senhor jogar no Maracanã?;;, conta Júnior, em entrevista por telefone ao Correio.

O questionamento do filho ecoou como um recado para Júnior retornar ao país em 1989. Repatriado pelo Flamengo, o craque proporcionou ao menino os títulos da Copa do Brasil (1990) e do Carioca (1991), mas o maior presente para Rodrigo estava reservado para 1992. Aos 38 anos, o vovô-garoto foi o protagonista do triunfo por 3 x 0, em 12 de julho, e do empate por 2 x 2, uma semana mais tarde, ambos no Maracanã. O Botafogo fechou a fase classificatória em primeiro lugar. Oito clubes avançaram ao quadrangular semifinal. Dono da pior campanha, o Flamengo era a zebra, mas desbancou São Paulo, Santos e Vasco na fase semifinal. Apenas uma equipe avançava à decisão.

O mantra ;deixou chegar; funcionou mais uma vez na história do Flamengo. Embalado pela torcida, o time comandado pelo técnico Carlinhos precisou de apenas 38 minutos para ser campeão. O lado esquerdo do ataque foi o atalho para a goleada nos primeiros 90 minutos da decisão. O lateral Piá cruzou, Gaúcho fez o corta-luz e Júnior chutou de chapa. Um desarme do volante Fabinho seguido de um lançamento milimétrico para o camisa 10, Nélio, determinaram o segundo gol. Em tarde de gala, Piá colocou a bola na cabeça de Gaúcho como se tivesse cruzado com as mãos no lance do terceiro gol.

O triunfo deveria deixar todos sorrindo, mas Júnior fechou a cara. Parte da diretoria do presidente Márcio Braga levou barris de chope ao vestiário para antecipar o brinde do penta. O capitão fuzilou o oba-oba com um olhar de condenação e abortou o plano.

Espeto

O Flamengo estava com uma mão na taça e começou a colocar as duas depois que Renato Gaúcho, astro alvinegro, foi flagrado no dia seguinte aos 3 x 0 dando churrasco na boca do flamenguista Gaúcho em uma confraternização na casa do rival. Enxotado do Botafogo pelo então presidente, Emil Pinheiro, o atacante nem participou do segundo round. Foi substituído por Vivinho. Júnior consolidou o título com uma cobrança de falta perfeita no primeiro tempo. ;Agradeço a paciência dos goleiros do Flamengo por ficarem horas comigo, depois dos treinos, ensaiando cobranças de bola parada;, disse à época. Júlio César, o Imperador, ampliou para 2 x 0. À espera da taça, o time da Gávea relaxou e permitiu o irrelevante empate do adversário.

Depois de um trágico pré-jogo, em que quatro torcedores morreram ao cair da arquibancada do Maracanã e outros 82 ficaram feridos, o elenco podia, enfim, abrir os barris de chope, encher a cara e brindar a conquista em cima do rival. ;Bebemos muitos barris, sim, mas depois do 2 x 2;, lembra Júnior.

Taça das Bolinhas

O Flamengo trava até hoje, com o São Paulo, uma guerra pela posse definitiva de um troféu simbólico que seria entregue ao primeiro pentacampeão brasileiro.
O rubro-negro tem nas contas o título da Copa União de 1987, em uma interminável disputa judicial com o Sport.

E para os alvinegros?
Dizer para a torcida do Botafogo que a final de 1992 foi a maior da história contra o Flamengo soa como uma blasfêmia. As maiores lembranças são duas conquistas de Estadual em cima do arquirrival. A primeira, em 1989, no histórico gol de Maurício que tirou Glorioso da fila. A segunda, em 2010, quando Loco Abreu calou o Maracanã com uma cobrança de pênalti com cavadinha que arrancou o fôlego dos religiosos da trupe de General Severiano.

O que mudou a história foi...
Uma improvável combinação de resultados no quadrangular semifinal. Em 8 de julho, Gilmar pegou pênalti, o volante Bernardo, do Santos, fez gol contra, e Gaúcho anotou um gol, no último minuto, quando a pressão do Santos era insuportável. Enquanto isso, o Vasco derrotava o São Paulo a contragosto da torcida, em São Januário. A galera gritava: ;Entrega;. O time cruz-maltino ignorou o pedido e pavimentou o caminho
rubro-negro para a decisão diante do Botafogo.

O que você (provavelmente) não sabia;
Júnior, Wilson Gottardo, Gilmar, Gaúcho e Uidemar aceitaram receber o salário 20 dias depois do elenco para que os mais jovens recebessem o pagamento atrasado e voassem baixo na reta final da fase classificatória. ;Aquilo foi fundamental para o título. O Flamengo arrumou uma grana que não dava para pagar todo mundo. Reuni os mais velhos e decidimos abrir mão em um primeiro momento para beneficiar os moleques. A partir dali, o ambiente mudou;, conta o maestro Júnior.

Histórico do confronto

Jogos
350

Vitórias do Botafogo
107

Vitórias do Flamengo
125

Empates
118

Gols do Botafogo
498

Gols do Flamengo
541

Duas perguntas para

Renato Gaúcho
atacante do Botafogo em 1992

Por que o Botafogo não conseguiu repetir
na final o brilho das fases anteriores?
O time de 1992 era muito bom. Fomos à final e perdemos. Faz parte, não gosto de falar nisso.

O churrasco com o Gaúcho depois
da derrota por 3 x 0 foi um erro?
Levaram para um lado que não tinha nada a ver. Fizeram uma tempestade em um copo d;água. Não tenho ressentimento do que aconteceu e faria tudo novamente. O Botafogo chegou à final daquele ano por causa de uma ótima fase minha.

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