Negritude em questão

Negritude em questão

Evento Sernegra chama atenção para temas raciais e de gênero por meio de debates, mostra cinematográfica, espetáculos e simpósio

Adriana Izel
postado em 19/11/2014 00:00









No mês da consciência negra, a capital sedia a terceira edição da Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça (Sernegra), promovida pelo Grupo de Pesquisas de Estudos Culturais sobre Classe, Gênero e Raça do Instituto Federal de Brasília (IFB). O evento começa hoje, a partir das 18h30, no Cine Brasília e segue até 23 de novembro, nos espaços Sernegra, com círculos de debates, exibição de filmes e espetáculos, simpósios e oficinas voltadas à valorização cultural.

Neste ano, o tema central é a violência institucional sofrida pelos negros e que vem aumentando nos últimos anos, como mostra a pesquisa Mapa da violência, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo os dados do estudo, 77% das vítimas de assassinato no Brasil entre 15 e 29 anos são jovens negros.

A abordagem do assunto começa desde a imagem de divulgação do evento até os círculos de debate. A arte que representa a edição de 2014 é um desenho de Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra, que morreu neste ano. ;É uma forma de homenageá-la. Ela que foi um ícone na dança e batalhou por mais espaço nas artes. É um jeito de dizer que não esquecemos a luta dela e que também não esquecemos as Cláudias e os Amarildos;, diz Pollyana Maria Ribeiro, pedagoga do IFB e coordenadora da Sernegra ao lado de Glauco Vaz Feijó e de uma comissão composta por mais quatro pessoas.

A abertura do evento, hoje, às 19h30, terá a exibição do documentário A batalha do passinho, do cineasta Emílio Domingos, que também participará de debate. O longa-metragem mostra como a dança se tornou uma manifestação cultural importante entre os jovens da favela carioca e ainda aborda as dificuldades enfrentadas por essa juventude. ;Acho muito importante e me sinto muito honrado de discutir questões mais sérias relacionadas ao funk, que sempre sofre preconceito. Os jovens do passinho são o exemplo concreto de que tudo isso é balela. Eles criaram uma expressão cultural, que é uma das mais importantes dos últimos 10 anos;, afirma Emílio.

O tópico volta a ser discutido amanhã, às 8h20, na mesa redonda Violência institucional e a questão de classe, de gênero e de raça, que terá participação do deputado federal Jean Wyllys, da pesquisadora da Justiça Global Juliana Farias e da mãe do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira (suspeito de ter sido morto por policiais militares em uma favela carioca), Maria de Fátima Silva. Há, ainda, um círculo de debate, marcado para o mesmo dia, intitulado Continuam a exterminar os nossos. ;A semana acabou ficando com essa configuração e discutindo um assunto atual ,que é o aumento nos homicídios de jovens negros;, explica Pollyana Maria.

Iniciativa
Criado em 2012, o projeto surgiu como forma dos estudantes do IFB compartilharem experiências e estudos sobre questões de raça, gênero e classe. A primeira edição teve como temática principal as políticas públicas, principalmente as cotas raciais. Com o crescimento do evento, atualmente, ele é aberto ao público, gratuito e abrange ainda mais temas. ;No Brasil, as pessoas pensam que não existe preconceito. Temos aquele racismo velado. Só que é preciso colocar essas discussão na mesa e é isso que fazemos;, afirma.

Além da violência institucional, assuntos como políticas públicas, serviço social e feminismo, arte e identidade negra também ganham espaço na Sernegra. ;Temos muitos trabalhos riquíssimos nessas temáticas e em paralelo atividades culturais que mostram o espaço dos negros nas artes;, completa Pollyana.

Haverá exibição de filmes na mostra Cine Baobá, encenação de espetáculos teatrais e de dança, exposições e oficinas de maquiagem, turbante e de samba carioca. Pollyana destaca algumas montagens que estão na programação, como Que cor é a flor?, de Supriya Ramos, que traz o espaço da mulher negra nas artes, e O [não] costume de Adão, que discute a relação com o corpo.


Sernegra
De hoje até 23 de novembro, nos espaços Sernegra (Cine Brasília, Instituto Federal de Brasília, Centro Cultural de Brasília, Balaio Café e Quilombo Mesquita). A programação envolve exposições, círculos de debate, desfile, dança, mostra cinematográfica e simpósio.


Programação do dia

Local: Cine Brasília (106/107 Sul)

18h30 ; Exposição Ubuntu, de Isis Albuquerque

19h30 ; Abertura oficial do evento com exibição do filme A batalha do passinho, de Emílio Domingos. Debate com o diretor do documentário e os convidados Adriano de Angelis e Breitner Tavares. Show da banda Marchetaria.

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