Pedal para a glória

Pedal para a glória

Santos x Corinthians, na final do Brasileiro de 2002, consagrou Robinho, em drible até hoje lembrado pela torcida nacional. Time dos Meninos da Vila, que já havia eliminado o São Paulo, celebraria o título diante de outro rival paulista

Felipe Seffrin
postado em 20/11/2014 00:00
 (foto: Nelson Almeida/Lancepress-15/12/2002)
(foto: Nelson Almeida/Lancepress-15/12/2002)





São Paulo ; Alguns dribles ficam gravados eternamente na memória do torcedor. Os lençóis e meias-luas de Pelé, os elásticos de Rivelino, a dança genialmente torta de Garrincha. Foi num clássico entre Corinthians e Santos, o dérbi mais antigo entre os grandes paulistas, valendo o título do Campeonato Brasileiro de 2002, que Robinho ; menino à época ; começou a escrever o nome na história. Poucos se lembram que no primeiro jogo da final que o Santos já havia vencido por 2 x 0. Muitos certamente já esqueceram que o Timão chegou a virar o jogo decisivo para 2 x 1, ficando a apenas um gol da taça no Morumbi. Mas as oito pedaladas de Robinho sobre Rogério ninguém esquece.

O confronto alvinegro na final do Brasileirão de 2002 teve todos os ingredientes: 75 mil torcedores, rivalidade estadual, duas viradas e quatro gols nos 15 minutos finais. O Corinthians chegou à decisão como favorito, com um elenco rodado, campeão do Rio-São Paulo e da Copa do Brasil. Classificado em oitavo, o Santos (ainda) era a zebra.

Robinho mal cabia no uniforme, o que não fez diferença na hora de partir para cima do volante improvisado ali na direita. ;Foi eu que toquei a bola para o Robinho;, recorda Léo. ;Preparei a ultrapassagem na lateral, mas percebi que ele ia carregar a bola. Aí ele começou a pedalar e progredir em direção à área. Quando o Rogério resolveu dar o bote, era tarde demais.; Diante das oito pedaladas, o corintiano recuou e cometeu pênalti, assinalado no ato por Carlos Eugênio Simon. O próprio Robinho, o caçula do time, pegou a bola. Ninguém contestou. Com tranquilidade, o atacante deslocou Doni e abriu o placar.

A jogada icônica do clássico transformou os destinos de Robinho e Rogério. Começava ali a promissora carreira do Rei das Pedaladas, que mais tarde brilharia na Europa e na Seleção. Já ao corintiano coube um apelido que não lhe traz boas lembranças. Ele virou Rogério ;Pedalada;. ;Nós demos apoio para ele no vestiário, falamos para ele levantar a cabeça;, descreve Deivid, em entrevista ao Correio. ;Ele ficou marcado por uma pedalada, mas foi mais mérito do Robinho que falha do Rogério. São coisas do futebol;, completa o ex-atacante. ;Até o meu filho caçula fala para os amigos que o pai tomou as pedaladas do Robinho. Ele nem era nascido;, disse Rogério, em 2013.

O Corinthians virou. Com gols de Deivid e Anderson. E o Parque São Jorge só precisava de mais um. ;Os gols vieram tarde demais;, lamenta Deivid. ;Apesar de sermos um time muito novo, pouco experiente, mostramos poder de reação muito grande;, reflete Léo.

Com Elano, aos 43 minutos, e o próprio Léo, aos 47 minutos do segundo tempo, o Santos virou mais uma vez o placar, decretando a vitória por 3 x 2 que deu ao Peixe seu primeiro título brasileiro após a Era Pelé. ;Na época, o torcedor do Santos era só sofrimento. O clube não ganhava há muito tempo, era um time desacreditado;, lembra Émerson Leão, treinador santista à época, que conversou com o Correio por telefone.

Não ganhávamos um título havia 18 anos. Foi inesquecível, ainda mais por ser em cima do nosso maior rival. Depois, até ganhei a Libertadores (em 2011), mas a festa não foi tão grande como em 2002;
Léo,
lateral-esquerdo do Santos


Não tínhamos dinheiro para reforços, mas isso foi bom porque o clube apostou na garotada. O título não veio por acaso. Não havia ciúmes, não havia vaidade;
Émerson Leão,
técnico do Santos campeão brasileiro em 2002


E para os corintianos?
A fiel torcida do Corinthians não tem dúvidas. Clássico inesquecível mesmo foi o do Campeonato Brasileiro de 2005, quando o Timão aplicou uma goleada histórica de 7 x 1 sobre o Santos, em tarde inspirada de Tévez, Nilmar e companhia. O massacre no Pacaembu, em 6 de novembro, deixou os corintianos em êxtase e ainda encaminhou o clube ao tetracampeonato brasileiro na reta final da competição.

O que você (provavelmente) não sabia;
Elano, Renato e Alex quase foram dispensados das categorias de base do Santos em 2002, mas acabaram resgatados pelo técnico Émerson Leão. Sem dinheiro para reforços, o treinador teve de caçar atletas entre os juniores. Elano e Renato estavam na lista de dispensa porque, segundo a psicóloga santista, não tinham ;personalidade de grandes jogadores;. Leão contrariou a doutora e levou os dois para o time profissional. O zagueiro Alex também estava prestes a ser dispensado da base, mas agradou Leão em um treinamento do Santos B. Virou xerifão.

O que mudou a história foi...
Uma improvável goleada do Gama sobre o Coritiba, acredite, acabou sendo determinante para classificar o Santos às oitavas de final. O Peixe chegou à última rodada da primeira fase em sexto lugar, mas precisava de vitória para manter-se no G-8 sem ser ultrapassado. Só que o alvinegro perdeu por 3 x 2 para o São Caetano. Os santistas choravam a desclassificação no vestiário do Anacleto Campanella quando souberam que o lanterna e já rebaixado Gama goleou o Coritiba por 4 x 0, impedindo o Coxa de roubar a última vaga no mata-mata.

Histórico do confronto

Jogos
316

Vitórias do Corinthians
126

Vitórias do Santos
99

Empates
91

Gols do Corinthians
588

Gols do Santos
465

Ferida aberta
Aos 12 minutos, do segundo tempo o árbitro Carlos Eugênio Simon expulsou o técnico Émerson Leão. O santista deixou o campo indignado, proferindo palavrões e reclamando de um suposto tapa de Fabinho em Robert. Até hoje, o treinador guarda mágoas. ;A expulsão foi ridícula. O juiz quis aparecer;, reclama. Para ver a partida, Leão burlou a vigilância dos funcionários no Morumbi. Assisti ao jogo um pouco no vestiário, um pouco na entrada do túnel, agachado. Mas eu tinha certeza no título. Só não sei se quem me substituiu [o preparador físico Antônio Barbosa] sabia o que estava acontecendo. El

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação