A carne mais barata

A carne mais barata

ADRIANA IZEL MAÍRA DE DEUS BRITO PAULA BITTAR Especial para o Correio
postado em 20/11/2014 00:00




O Dia da Consciência Negra é uma data de celebração e festa, mas também de reflexão. No Brasil, por ano, 30 mil jovens entre 15 e 29 anos são assassinados. Desse número, 77% são negros, segundo o Mapa da Violência.

O tema da violência contra o jovem negro da periferia vem ganhando mais atenção na sociedade, na mídia e no ambiente artístico. Desde ontem, a Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça (Sernegra), que ocorre no Instituto Federal de Brasília (IFB), discute o assunto por meio de debates e exibições de filmes. Entre eles, o documentário A batalha do passinho, do cineasta Emílio Domingos.

O longa retrata o dia a dia dos adolescentes nas favelas cariocas e como a dança mudou a perspectiva de vida dessa população. Além das mudanças positivas na comunidade, o filme também revela a violência enraizada naqueles locais, representada pela morte do dançarino Gambá. O jovem de 21 anos foi assassinado por dois homens e enterrado como indigente no Rio de Janeiro.

;Não era o objetivo inicial tocar no assunto (da violência), mas aconteceu. O longa aproxima muito o espectador dessa juventude, que está dentro do perfil apontado na pesquisa;, diz Emílio Domingos. ;A morte do Gambá teve uma comoção enorme, mas, infelizmente, esse quadro ainda não mudou. Ele foi uma vítima dessa violência, que não é só física. Está embutida na cabeça das pessoas. Há uma tensão, um medo, como se eles fossem agressivos e violentos.;

Vencedor do prêmio do júri popular do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (2014), o documentário Sem pena, de Eugenio Puppo, aborda as fragilidade do sistema carcerário brasileiro. Os depoimentos evidenciam como a questão racial e social influencia nos julgamentos e nas condenações. ;São dois pontos convergentes e fundamentais. Há uma tendência maior em condenar ou prender uma pessoa por ser pobre e preta;, destaca Puppo.

O diretor conta que ficou impressionado com a quantidade de pessoas negras e jovens que a equipe viu nos presídios. ;Constatamos que o preconceito não diminuiu. Se o Estado não dá assistência e a sociedade não se preocupa em investir no desenvolvimento social, não há muitas chances para o jovem negro;, observa.

Para Puppo, os veículos de massa e a própria televisão não abordam questões polêmicas, enquanto o cinema tem a preocupação de levantar temas relevantes como a discriminação racial. ;O cinema tem esse papel formador e conscientizador. Ele é livre, não tem amarras. Estamos vivendo um momento político muito difícil, tempo oportuno para mostrarmos as feridas históricas de nossa sociedade.;



O debate
Na literatura, Corpo negro caído no chão: O sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro, de Ana Luiza Pinheiro Flauzina, expõe as relações entre o racismo e o sistema penal, ao evidenciar a questão da raça. ;Nesse espaço, o tombo dos corpos era tão evidente que nunca foi possível censurar isso de forma explícita.;

;O livro é um documento que contextualiza a construção de um estado em torno do controle da vida negra no país. O resultado mais visível é o extermínio da juventude negra, mas não se resume só a isso;, diz a professora visitante da Universidade de Brasília e pesquisadora associada do Departamento de Estudos Africanos e da Diáspora Africana UT-Austin.

Ana Luiza destaca que a obra, que nasceu de uma dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Direito da UnB, teve liberdade ao trazer referências que vão além da academia. ;De certa forma, nós não temos acesso aos autores da diáspora africana, nem nacionais que podem subsidiar esse tipo de trabalho, porque negros não tendem a ter suas obras publicadas.;


Resistência por meio da arte

A carne
A música de Marcelo Yuka e Seu Jorge foi regravada por vários artistas, entre eles, Elza Soares, que confere doses extras de emoção à canção que diz: ;A carne mais barata do mercado é a carne negra/Que vai de graça pro presídio/ E para debaixo de plástico/ Que vai de graça pro subemprego/ E pros hospitais psiquiátricos;.

Fruitvale station ; A última parada
O filme de Ryan Coogler narra o último dia de vida de Oscar Grant, que morreu baleado por um policial em uma estação de metrô na Califórnia (EUA). O longa é baseado em fatos e utiliza imagens de celular que registraram o momento
em que a vítima, deitada e algemada, é morta.

Capão pecado
O romance de Ferréz gira em torno do jovem Rael, um garoto que sonha ser escritor. No plano de fundo, a vulnerabilidade dos jovens negros moradores das periferias.

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