Crise racial detona revolta nos EUA

Crise racial detona revolta nos EUA

Ativistas convocam protestos em 30 estados contra a decisão da Justiça de Saint Louis de não indiciar o policial que matou um jovem negro. Madrugada de violência deixa saldo de destruição e mais de 60 presos

GABRIELA FREIRE VAENTE
postado em 26/11/2014 00:00
 (foto: Jim Young/Reuters)
(foto: Jim Young/Reuters)









Depois de Saint Louis enfrentar a noite considerada a mais violenta desde o início dos distúrbios pela morte do jovem Michael Brown, o governador do Missouri, Jay Nixon, acionou a Guarda Nacional e mais de 2 mil homens foram mobilizados para enfrentar mais uma madrugada de protestos. A insatisfação da comunidade negra com a decisão da Justiça local de não indiciar o policial Darren Wilson, autor dos disparos que mataram Brown, transbordou da capital do Missouri para as principais cidades do país, como Nova York, Chicago, Los Angeles e a capital, Washington. Ontem, autoridades tentavam evitar que o cenário se repetisse, diante da expectativa de manifestações em mais de 30 estados. ;A vida e as propriedades devem ser protegidas. Esta comunidade merece ter paz;, afirmou Nixon.

Segundo a rede de televisão CNN, mais de 130 manifestações estavam planejadas para a noite de ontem. No início da noite, manifestantes já se reuniam em Nova Jersey, Baltimore, Atlanta e Los Angeles. Na segunda-feira, diversas cidades americanas já haviam sido palco de marchas em apoio aos ativistas de Ferguson, subúrbio de Saint Louis onde Brown foi morto, e pelo fim da violência policial contra jovens negros em todo o país.

Centenas de pessoas demonstraram insatisfação com a decisão do júri na Times Square, em Nova York, exibindo cartazes que diziam ;o racismo mata; e ;não permaneceremos calados;. Em Washington, os protestos noturnos se concentraram diante da Casa Branca. Na manhã de ontem, a CNN relatou que ativistas se deitaram no chão diante da sede do Departamento de Polícia, simulando corpos caídos. Manifestações foram registradas em Chicago, Los Angeles, Boston, Filadélfia e Oakland.

Apesar dos insistentes apelos por demonstrações pacíficas, inclusive por parte do presidente Barack Obama, os protestos na região de Saint Louis deixaram um rastro de destruição. Pelo menos 12 prédios foram incendiados e estabelecimentos comerciais foram saqueados e destruídos. Manifestantes atiraram objetos contra a polícia, aos gritos de ;sem justiça não há paz;. Segundo as autoridades, tiros foram disparados contra agentes de segurança, que não revidaram. Cerca de 60 pessoas foram detidas apenas entra a noite de segunda-feira e madrugada de ontem.

;Injustiça;
Brown foi morto em 9 de agosto, em plena luz do dia, ao ser abordado por Wilson. Embora o policial alegue que foi atacado pelo jovem de 18 anos, testemunhas afirmaram que o adolescente estava desarmado e rendido quando foi alvejado. Depoimentos divulgados ontem pela procuradoria de Saint Louis, porém, contradizem essa versão. Os advogado da família de Brown consideraram a decisão do grande júri ;injusta; e fizeram duras críticas ao ;falido; sistema de Justiça dos EUA. ;Nós nos pronunciamos contra essa decisão porque em toda a América, seja em Nova York, Los Angeles, Califórnia ou Cleveland, jovens negros são mortos por policiais;, afirmou o advogado Benjamin Crump.

Crump insistiu que a more de Brown deve representar uma mudança sólida para a sociedade americana, e não se limitar ao barulho das manifestações. Ele voltou a mencionar a iniciativa de enviar ao Congresso um projeto de lei que obrigue o uso de uma câmera junto ao uniforme dos agentes de segurança para coibir abusos.

O reverendo Al Sharpton, veterano e respeitado defensor dos direitos civis, observou que a violência contra a comunidade negra ;não é um problema de Ferguson, mas de todo o país;. ;Podemos ter perdido o primeiro round, mas a luta não está acabada;, afirmou.

Apesar de o júri de Saint Louis ter decidido não indiciar Wilson, o Departamento de Justiça dos EUA conduz duas investigações abertas após a morte de Brown. Uma delas tenta responder se Wilson violou os direitos civis do adolescente, enquanto outra checa os arquivos do Departamento de Polícia de Ferguson relativos a minorias raciais.

Margo Schlanger, especialista em direitos civis da Universidade do Michigan, acredita que as investigações do Departamento de Justiça são a resposta federal mais importante ao episódio de Ferguson. ;O governo deve pressionar a cidade a promover reformas significativas no policiamento, no treinamento e na supervisão dos agentes;, observa.

A organização Hands Up elevou ontem a pressão para que o presidente Obama tome providências sobre o caso de Michael Brown. O grupo iniciou uma campanha para que o Departamento de Justiça intensifique as apurações. ;Uma investigação justa, imparcial e transparente é o único caminho para obtermos justiça. É hora de acabar com o terrorismo policial;, diz uma mensagem divulgada pela organização.


Três perguntas para



Andra Gillespie,
professora de ciência política e especialista em movimentos raciais
da Universidade de Emory, na Geórgia


O que representa o
caso de Michael Brown
para o movimento pelos
direitos civis?

As mudanças demográficas nos EUA apontam para a necessidade de revolver questões de discriminação racial. Não vou dizer que 2014 seja um ponto de virada, mas esse caso, como muitos incidentes anteriores de brutalidade policial, apresenta uma oportunidade para se abordarem questões de longa data sobre a desigualdade sistêmica na América. Veremos se os americanos a aproveitarão.

Há disposição para
uma reforma no sistema
policial dos EUA,
como pedem os
manifestantes de Ferguson?

A questão é se a emergia envolvendo Ferguson será mantida quando o caso sair do noticiário. Quando o vigilante George Zimmerman foi absolvido pela morte de Trayvon Martin, em 2013, houve um chamado para derrubar as leis que permitiram a Zimmerman alegar a legítima defesa ao atirar em Martin. Esses esforços estagnaram. Agora, há muita energia para abordar as questões sistêmicas que o caso Brown revela. No entanto, os ativistas devem estar atentos para manter essa energia. Caso contrário, o fervor pode se desvanecer, e as coisas não vão mudar.

Como a senhora avalia
a resposta de Barack Obama
a um caso que ganhou
dimensão nacional?

O presidente está em uma situação interessante. Ele não pode parecer muito simpático aos protestos, pois não quer parecer parcial em favor dos negros, mas também não quer dar a impressão de que condena as manifestações sob qualquer circunstâncias. Ele reconheceu, no entanto, que o caso de Michael Brown revela questões sistêmicas sobre o relacionamento entre as comunidades negras e as forças de polícia locais. Ele fez a coisa certa ao instar à calma e apontar que ainda há uma investigação federal pendente. Mas algumas pessoas, sem dúvida, gostariam que ele fizesse mais.

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