O Líbano tem a celebrar

O Líbano tem a celebrar

HANNA MTANIOS Advogado, membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB-GO e vogal da Junta Comercial de Goiás, é filho de libaneses
postado em 26/11/2014 00:00


Uma forte mobilização pacífica liderada inicialmente por estudantes, mas que aos poucos ganhou a adesão de cidadãos de diferentes idades, toma conta dos quatro cantos do país. Com lenços das cores da bandeira nacional e slogans pedindo liberdade, soberania, independência, verdade e unidade nacional, o povo pede o avanço da democracia.

O cenário poderia ser o Brasil nas manifestações de junho de 2013. Ou países como a Tunísia e o Egito, que protagonizaram a Primavera Árabe. Quem sabe até as ruas de Hong Kong nos dias de hoje. Mas esses bordões marcaram o evento que o Ocidente batizou de Revolução dos Cedros.

A mobilização do povo libanês em 2005 pedia liberdade e avanços no processo democrático iniciado 71 anos atrás. Em 22 de novembro de 1943, os franceses libertaram o presidente libanês Bechara al Khoury e o premiê Riad al Solh da prisão na fortaleza de Rachaya. Desde então, o Líbano é oficialmente independente, mas os avanços democráticos exigem da nação eventos como a Revolução dos Cedros. E o povo tem cumprido sua missão com bravura.

É inevitável que o processo seja paulatino, já que um país cujo território corresponde à metade de Sergipe enfrenta historicamente um contexto regional instável. No intuito de fortalecer sua democracia, o povo libanês apoiou fortemente a Primavera Árabe de 2010/2011, ainda que não vivia à época um regime ditatorial.

A sabedoria milenar dos herdeiros da cultura fenícia, especialista em dialogar, negociar e a adaptar-se às diferentes nações com as quais se relacionava no Oriente e no Ocidente, serviu e ainda serve de exemplo para o povo árabe da região.

O papa Bento 16 empreendeu visita oficial ao Líbano em 2012 e reconheceu a relevância do país para a democratização regional. Afirmou na ocasião que ;a convivência feliz, e bem libanesa, deve provar a todo o Médio Oriente e ao resto do mundo que no interior de uma nação pode haver colaboração entre as diferentes igrejas;.

O Brasil tem papel importante no fortalecimento democrático do Líbano. Afinal, aqui vivem 10 milhões de libaneses e descendentes, quase três vezes a população do país do Cedros, que é de 3,5 milhões de habitantes.

A forte migração do Líbano para o Brasil ocorreu por iniciativa do imperador Dom Pedro II, que foi pessoalmente a Beirute, em 1876. Em 1880, chegou ao solo brasileiro o primeiro navio. Essa relação manteve-se forte ao longo das décadas.

Um dos primeiros países a reconhecer a independência do Líbano, em 1944, o Brasil assinou, 10 anos depois, o Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação entre os dois países, durante visita oficial do presidente libanês, Camille Chamoun.

Essa relação, forte e amistosa, levou o Líbano a destacar um de seus mais renomados diplomatas para assumir a embaixada no Brasil. O embaixador Joseph Sayah teve atuação importante na diplomacia libanesa em Washington e foi cônsul-geral em São Paulo.

A cultura empreendedora libanesa contribuiu fortemente para o desenvolvimento do Brasil. Mascates, varejistas e empresários oriundos do Líbano destacaram-se por suas habilidades nos negócios e na política. Não é casual que o Brasil tenha hoje um vice-presidente (Michel Temer) filho e irmão de libaneses. O diálogo e a negociação, fundamentais para o exercício político, são virtudes tradicionais do país dos Cedros.

Existem, ainda, muitos avanços a serem conquistados pelo povo libanês, mas é preciso reconhecer as importantes conquistas. Há, portanto, muito que comemorar nas celebrações da data nacional.


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