Todas as honras ao anarquista científico

Todas as honras ao anarquista científico

Hoje, a UnB homenageia, com o título de professor emérito, Antonio Lisboa Carvalho de Miranda, um estudioso da ciência da informação, além de poeta, escultor e dramaturgo

Ana Paula Lisboa
postado em 26/11/2014 00:00
 (foto: Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press)


Aos 74 anos, Antonio Lisboa Carvalho de Miranda receberá a maior honraria que a Universidade de Brasília (UnB) pode conceder: o título de professor emérito. A homenagem será hoje, às 10h, no Auditório da Reitoria. ;Eu não esperava receber esse título e, para mim, ele vem mais como um carinho;, diz. Ele é o terceiro docente da Faculdade de Ciência da Informação (FCI/UnB) a ser condecorado. Antes dele, Rubens Borba de Moraes ; primeiro a ganhar o título de professor emérito da UnB ; e Edson Nery da Fonseca foram consagrados, respectivamente, em 1972 e em 1995. ;É um título honorífico e um reconhecimento raro, que homenageia o trabalho de uma vida inteira;, explica Elmira Simeão, diretora da FCI/UnB. Professores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), da Universidade de São Paulo (USP) e de outras instituições de ensino estão em Brasília para prestigiar Antonio Miranda na Reitoria.

Estudioso da ciência da informação, com ênfase em planejamento de sistemas de informação, ele atuou principalmente em alfabetização e inclusão digital, acesso à informação, sociedade da informação, sistemas de informação e comunicação científica. O fato de ser o criador da comutação bibliográfica no Brasil o torna ainda mais relevante para a área. Enquanto trabalhava na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), foi o responsável por institucionalizar o Programa de Comutação Bibliográfica (Comut) ; que permite a obtenção de cópias de documentos técnico-científicos disponíveis nos acervos das principais bibliotecas brasileiras e em serviços de informação internacionais.

Ao Distrito Federal, deu uma grande contribuição: foi o primeiro diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, onde atuou entre 2007 e 2011, e a vocacionou para novos tipos de registro do conhecimento. ;Tenho uma linha híbrida de pesquisa em animaverbivocovisualidade, que amalgama a convergência tecnológica misturando voz, imagem, texto, vídeo, animação; E isso eu trouxe para a biblioteca, unindo todos os meios de registro do conhecimento com as novas tecnologias.;

Na Universidade de Brasília, realiza-se com aulas, orientações e pesquisa. ;Adoro dar aula para a garotada. Gosto de ver jovens sem decisão concreta e trazê-los para o mundo do conhecimento;, revela. ;Na pós-graduação, aprendo e estudo com os alunos. Tenho o prazer de escolher alunos que querem pesquisar minhas áreas de interesse para orientar e, assim, aprendo contantemente. O professor está aqui para aprender também;, garante o docente aposentado. ;Tenho boa saúde e estou ótimo. Eu não me vejo como velho e pretendo continuar ajudando a universidade até morrer.;

;Sou um oximoro concreto, um anarquista científico, sou uma grande contradição;, brinca. Poeta, escultor, dramaturgo e professor, Antonio Miranda se define também como um ;vagamundo;, por estar sempre viajando por países da América Latina para dar palestras e participar de eventos. ;Adoro viajar e mantenho muitos amigos fora de Brasília. Aqui, vivo ocupado pela universidade, pela poesia, pelo meu site, pelos meus projetos; Na minha casa, no Cruzeiro, não tenho bicho nem planta, só livros porque não tenho tempo.; O maranhense gosta de cuidar de plantas na chácara que possui em Cocalzinho de Goiás, mas o grande interesse dele é promover a poesia brasileira, por isso, mantém em seu site um grande acervo dos mais diferentes autores.

Criar e escrever poemas também é um de seus talentos. ;Publico mais fora do Brasil do que aqui porque recebo mais convites. Aqui, o mercado é difícil. Ter visibilidade a partir de Brasília é difícil. Há uma concentração no eixo Rio-São Paulo e até um certo preconceito pelas outras regiões;, observa. ;Escrevo do soneto ao poema visual. Não tenho preconceito, acredito que você pode fazer poesia com tudo.; O público preferido, ele admite, é formado por jovens. ;Eu me realizo mostrando poesia visual para eles. Os velhos não entendem, são resistentes.;

Admiração
Débora Proença, 32 anos, conheceu o homenageado quando era caloura do curso de biblioteconomia. ;Só tive aula com ele quando estava no sexto semestre, mas já o conhecia por sua importância para a ciência da informação e para a faculdade. Em sala de aula, é um professor muito acessível, agradável, atencioso; Foi uma experiência riquíssima;, lembra. ;Quando fiz mestrado, tive mais contato com ele. O prêmio é supermerecido e é até tardio: ele deveria ter recebido antes. Nós alunos só temos que agradecer pelo privilégio de contar com ele como pensador e professor.;

Entre os admiradores de Antonio Miranda, está Márcia Marques, 57 anos, professora da Faculdade de Comunicação e aluna de doutorado em ciências da informação. ;Meu primeiro contato com ele foi quando ele era diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, depois o reencontrei em função do meu doutorado. Na minha tese, trabalho alguns conceitos que ele trouxe para o campo acadêmico, mostrando que hoje o texto tem uma multiplicidade e se relaciona com o audiovisual, com a imagem, com o som; O professor Antonio Miranda tem ideias para um novo mundo virtual e isso me encantou. Ele tem mais de 70 anos, mas é um adolescente de pensamentos e ideias;, diz. ;Eu acho bacana que a universidade faça homenagem a professores que deixam um legado. Ele tem uma legião de fãs considerável, coleciona prêmios, é dono de um grande acervo de poesia ibero-americana;, observa.

Isa Freire, 67 anos, professora de ética da informação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) veio para Brasília especialmente para prestigiar a homenagem ao professor emérito. ;Ele é extremamente criativo, então, os alunos ficam sempre atentos. Como profissional, foi essencial para o desenvolvimento da pós-graduação em ciência da informação no país. Muitos devem a ele a contribuição para a área. Como pessoa, é de uma generosidade ímpar. O título de professor emérito é muito justo. Quem o conhece entende. Amo o professor Miranda de todo o coração;, derrete-se.

Elmira Simeão, 41 anos, diretora da Faculdade de Ciência da Informação (FCI/UnB) foi uma das responsáveis por reunir assinaturas pedindo a homenagem ao professor Antonio Miranda. ;O título se deve à carreira e à vida dele. É um modo de reconhecê-lo publicamente. Quando valorizamos nossos professores, também damos visibilidade a nossa área de ciência da informação. Acredito que é obrigação do gestor dar esse reconhecimento. Ele

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