O último sarau

O último sarau

Atlético-MG e Cruzeiro se enfrentam, pela sétima vez no ano, para decidir quem fica com o derradeiro título nacional de 2014. Final do Mineirão será o maior clássico da história de Minas Gerais e representará o auge do renascimento do futebol no estado

Braitner Moreira
postado em 26/11/2014 00:00
 (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press - 21/9/14)
(foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press - 21/9/14)




Só um cardiologista será capaz de explicar as consequências da repetição exaustiva dos clássicos entre Atlético-MG e Cruzeiro no decorrer de 2014. Os arquirrivais medem forças, hoje, pela sétima vez no ano, com apenas um epílogo possível: um dos lados terminará a noite na Pampulha erguendo a taça da Copa do Brasil. Depois de tantas partidas nos últimos meses ; e nenhuma delas vencida pelos celestes, recém-entronizados bicampeões brasileiros ;, só restarão na memória dos 14 milhões de atleticanos e cruzeirenses os 90 minutos que estão por vir.

A rivalidade mineira é a mesma que moveu Rafael e Michelangelo a entrarem para a história como expoentes do Renascimento. Sabendo da qualidade alheia, os dois morreram em busca da perfeição. Meio milênio mais tarde, é possível entender o que faltou para o ;desempate;: um confronto como o de hoje. Enquanto os gênios italianos disputavam espaço na Capela Sistina sem nunca se esbarrarem, os mineiros terão de se ver uma arena lotada, sabendo que qualquer escorregão ; e a previsão é de muita chuva durante o clássico ; servirá para dar a glória eterna ao outro.

O que a Europa experimentou no início do século 16 em suas principais formas de artes, Minas Gerais vive, nesses tempos, com esta que é sua maior competência histórica: o futebol. Os dois gigantes de Belo Horizonte ameaçaram ruir duas vezes desde a virada do milênio, a primeira no rebaixamento do Atlético, em 2005, e a outra, seis anos mais tarde, quando foi o Cruzeiro a só se livrar da queda no último jogo possível. Mas time mineiro com tanta necessidade nem parece coisa deste século, tamanha supremacia recente.

O renascimento do futebol em Minas Gerais, tal como na arte europeia, passou pelo rompimento de estruturas medievais aos trancos e barrancos. A 20km de distância uma da outra, a Toca da Raposa e a Cidade do Galo tornaram-se referências em centros de treinamento. Os clubes melhoraram a governança, entregaram o futebol a dirigentes capacitados, somaram grandes contratações a ótimos pratas de casa, investiram no sócio-torcedor e entenderam a importância do marketing.

Enxergando o futebol como arte possível, os gigantes de Belo Horizonte reencontraram-se com a valorização dos ideais de jogo bonito e competitivo, como se buscassem inspiração em Tostão e Reinaldo. Assim, praticamente excluíram a figura do volante xerife. A caça chegou ao ponto de Pierre, fundamental na primeira Libertadores do Galo, acabar de lado. Os times querem jogo. As torcidas exigem arte, seja lá o ;sfumato; suave num drible de Everton Ribeiro ou a profana polifonia numa arrancada de Luan.

Para os atleticanos, erguer uma barricada bem-sucedida em pleno Mineirão para sair do estádio com sua primeira Copa do Brasil será similar à instauração do barroco, tamanha quebra histórica no fio que ainda une o estilo de jogo dos dois times. Para os cruzeirenses, atingir o ápice na Pampulha bastará para esticar o estilo celeste por mais um tempo, às custas do rival. Fato é que o renascimento mineiro acaba hoje. E haverá quem possa comemorar.

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