Favela no centro das atenções

Favela no centro das atenções

Regina Casé fala ao Correio sobre racismo, preconceito com o que vem da periferia e de futuros projetos

Ricardo Daehn
postado em 26/11/2014 00:00



No próximo dia 31 de dezembro, em breve, calculado e assumido surto, a atriz Regina Casé já tem ensaiado um discurso de regozijo: ;Vou falar para mim: ;Parabéns, Regina, você fez dois filmes ; Made in China (em exibição) e Que horas ela volta? ; conforme havia prometido;;. Na brincadeira, revela-se o prazer do retorno à profissão de atriz. Sempre desencorajando preconceitos, no novo longa, Casé joga até com brincadeiras relacionadas a preconcebidas ideias étnicas. Entram em cena jocosos conceitos ligados a chineses. Mas o filme avança no quesito miscigenação, ao garantir a presença de atores negros, entre os quais o cantor Xande de Pilares e a atriz Juliana Alves.

Regina e o marido, Estevão Ciavatta, ainda percebem o Brasil ; do qual sempre buscou as raízes ; como país com questões sociais pendentes. Ainda hoje, o fantasma do preconceito racial ronda o cotidiano. ;Meu genro é negro e eu tenho um filho negro. Digamos que não houvesse o preconceito, só de você ter um pouquinho mais de condições e de colocar seu filho na escola particular, ele vai passar 15 anos da vida num meio que só tem brancos. Mesmo que todos o tratem da melhor maneira possível ; o fato de ser o único já gera uma enorme carga. Aí, se encontra um atestado de desigualdade gigantesco. Só vai ter amigos com a mesma cor de pele que a sua, se estudar numa escola pública;, observa.

Para a também apresentadora, atenta a manifestações culturais da periferia, cabe a objetividade de dar nomenclatura: ;No Rio, há favelas, que, em São Paulo, seriam tratadas como periferia;. Com a massa, aliás, é que Regina Casé se refestela. ;Quando eu era mais nova, acreditava que isso vinha de mim. Mas sabe a que eu atribuo? À educação que eu tive. Meus pais sempre tiveram amigos de diferentes classes sociais. Viam muita naturalidade eu passar o fim de semana na favela da Catacumba. Isso por eu adorar a empregada Marinete, o marido dela e os filhos. Meus pais sempre tiveram amigos, igualmente brancos e negros. Eu achava tão normal e sempre pensava que, para todos, fosse algo comum;, conta.

Se a diferença foi sentida quando cresceu, a atriz, hoje aos 60 anos, tratou de aplainá-la, pelo enorme poder de comunicação. ;Hoje em dia, até esteticamente, a expressão cultural do que costumávamos chamar de periferia está no centro das atenções. Profeticamente, a gente fez, no passado, um programa chamado Central da periferia;, comenta a atriz. ;Noutros programas parecidos que fiz para a tevê, por exemplo, estão trabalhos para os quais dou a mesma importância de quando atuava no grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone. Por isso, muitas vezes, abri mão de fazer uma peça, um filme ou uma novela;, explica

Mesmo com algumas cisões nítidas na conjuntura do país, Regina, que recentemente esteve na capital, não compactua com correntes derrotistas. ;A ideia de polarização e de que o Brasil tá dividido é um peixe que não compro. O país é muito mais rico e complexo do que isso e precisamos celebrar e respeitar as diferenças. Não se pode partir para divisão, para ser um cenário de um contra o outro. Forças distintas atuando significam que temos um país vivo e que vai estar se questionando e se renovando;, sublinha a atriz avessa ;à guerra que tem sido feita pelas redes sociais;.

;Tudo legal;
Na hora de realizar o novo filme, pesou o encantamento pelo centro que sempre lhe encheu os olhos. Impregnada por componentes de novidade, vivacidade e alegria que transbordam no centro comercial carioca do Saara, Regina, há 10 anos, escaneava a área, nutrindo, ao lado do marido (e diretor), Estevão Ciavatta, o desejo de fazer até mesmo um documentário. O intuito, porém, transformou-se na ficção batizada Made in China.

;Fomos nos apaixonando, cada vez mais. Lá, eu vou desde que nasci, para comprar doces de Cosme e Damião. É um lugar para nutrir tradições: ir à festa de São Jorge, comprar presentinhos de Natal no atacado. No Saara, tudo é lindo e maravilhoso;, diz a inveterada compradora de tecidos (transformados em fantasias de carnaval) e de ovos de Páscoa.

Da lida com a periferia, Regina Casé parece bem satisfeita com os frutos. ;Iluminamos pessoas que estão fazendo coisas novas, em algum momento, na tevê, com programas que tratavam de um Brasil desconhecido. Hoje, aliás, isso está estabelecido: se vê a cultura da periferia em todo canto da tevê;, comemora.

No entender da atriz, são realizações que têm correspondência na atuação. ;Não tenho o menor pudor de dizer que nós fomos da vanguarda, fomos pioneiros. Realmente, a gente fez uma escola com o Asdrúbal Trouxe o Trombone ; era uma coisa original e muito inovadora. O mesmo se passou, na tevê, com o TV Pirata;, avalia.

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