As doações eleitorais do líder da quadrilha

As doações eleitorais do líder da quadrilha

Empresa de suspeito de vender lotes da reforma agrária repassou R$ 350 mil para a campanha da futura ministra da Agricultura, Kátia Abreu

JOÃO VALADARES ANDRÉ SHALDERS
postado em 02/12/2014 00:00
 (foto: José Cruz/Agência Senado - 8/5/14)
(foto: José Cruz/Agência Senado - 8/5/14)

O produtor rural Marino José Franz, preso na Operação Terra Prometida por ser, segundo o Ministério Público Federal, o braço financeiro da organização criminosa que movimentou R$ 1 bilhão na comercialização ilegal de terras da reforma agrária, ajudou a financiar, nas eleições deste ano, a campanha vitoriosa ao Senado da futura ministra da Agricultura, Kátia Abreu (PMDB-TO). Ontem, questionada pelo Correio se havia telefonado para o empresário um dia antes de ele ser preso por agentes da Polícia Federal (PF), Kátia Abreu não confirmou, mas também não negou. Por meio da assessoria de imprensa, limitou-se a dizer que não responderia se havia conversado com o suspeito na quarta-feira passada.

A Fiagril, empresa de Marino, doou, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), R$ 350 mil diretamente para a senadora. O próprio produtor rural, como pessoa física, repassou mais R$ 450 mil para o Comitê Financeiro Único do PMDB no Tocantins. Em 2010, a Fiagril também contribuiu financeiramente com a campanha para deputado federal do ministro Neri Geller (PMDB-MT), citado por testemunhas ouvidas pela Polícia Federal por ter favorecido a negociação ilegal de pedaços de terra que deveriam ser utilizados por agricultores beneficiados pelo programa de reforma agrária do governo federal. Ele recebeu R$ 50 mil da Fiagril em duas parcelas. O empresário Natal Aparecido Deliberalli, também preso na mesma operação, repassou R$ 10 mil para a campanha de Geller.

Nas eleições deste ano, o grupo ainda fez doações de R$ 380 mil para a deputada federal Fátima Lúcia Pelaes (PMDB-AP); de R$ 300 mil para o governador eleito de Mato Grosso, Pedro Taques (PDT-MT); de R$ 80 mil para o deputado estadual não eleito Dirceu Camilo Cosma (PV-MT); de R$ 20 mil para o deputado estadual R$ Valdir Mendes Barranco (PT-MT); e R$ 80 mil para a campanha da presidente Dilma Rousseff (PT).

Liberdade negada
Taques respondeu que todas as doações recebidas foram lícitas e declaradas ao Tribunal Superior Eleitoral. A assessoria do Ministério da Agricultura e do Palácio do Planalto informaram que não comentariam o assunto. Kátia Abreu afirmou que as doações ocorreram dentro do que determina a legislação eleitoral. O deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT), que recebeu R$ 50 mil de Marino para a campanha, alegou que defendia o setor e, por isso, foi agraciado com a contribuição. O Correio não conseguiu entrar em contato com Dirceu Camilo Cosma (PV-MT) e Valdir Mendes Barranco (PT-MT).

Na noite de domingo, o presidente do Tribunal Regional Federal da 1; Região, desembargador Cândido Ribeiro, negou 10 pedidos de habeas corpus solicitados por presos da Operação Terra Prometida. Na lista dos suspeitos que tiveram as prisões mantidas, estão os nomes, entre outros, dos produtores rurais Natal Deliberalli; Marino José Franz, ex-prefeito de Lucas do Rio Verde; e Rui Schenkel (PR), vice-prefeito da cidade de Itanhangá. Odair e Milton Geller, irmãos do ministro Neri Geller, também permanecem presos.

;A decisão impugnada não se expõe com clareza quais os fatos concretos levados a efeito pelos investigados para caracterização da medida cautelar. O fato é que a investigação conduzida pelo âmbito da jurisdição de Diamantino demonstra a possível ocorrência da prática de diversos delitos;, alegou, em despacho, o magistrado.

Portos
Na edição de domingo, o Correio mostrou que Marino José Franz conseguiu autorização do governo federal para explorar dois portos e, ao mesmo tempo, implementar o escoamento de sua produção de grãos em Mato Grosso. Com articulação do ministro da Agricultura, Neri Geller (PMDB), a Cianport, empresa de Marino, ganhou concessão de 25 anos para operar o terminal do Porto de Miritituba, no Pará. Também assinou contrato de adesão para o Porto de Santana, no Amapá. As concessões, expedidas pela Secretaria de Portos, são prorrogáveis por igual período.



Para investir R$ 370 milhões nos dois terminais, o empresário recebeu um empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O anúncio do contrato de adesão da empresa de Marino, a Companhia Norte de Navegação e Portos (Cianport), foi feito pelo ministro Neri Geller em 27 de outubro deste ano em evento realizado na capital de Mato Grosso. O investimento anunciado pelo grupo foi de R$ 250 milhões. Na ocasião, o ministro explicou que, no Porto de Santana, R$ 220 milhões seriam aplicados no terminal e os outros R$ 30 milhões na construção de estruturação de silos.

Em nota oficial, a Fiagril repudiou as acusações contra o empresário Marino José Franz. A nota diz que o produtor rural tem uma história pautada pela seriedade, ética e responsabilidade social ao longo de 35 anos em Mato Grosso. Comunicou que ;o ex-prefeito de Lucas do Rio Verde tem trabalho reconhecido em âmbito nacional e internacional, tanto como servidor público, quanto como empresário e agricultor;. O comunicado alega que o produtor rural não financia qualquer negócio relacionado com compra e venda de terras. Diz também que ele não possui terras no projeto de assentamento no município de Intanhangá, em Mato Grosso, principal alvo da investigação.



Entenda o caso
Fraude bilionária
O foco da investigação da Operação Terra Prometida são lotes do projeto de assentamento Tapurah/Itanhangá, em Mato Grosso. A área, destinada à reforma agrária, é a segunda maior da América Latina. Possui 115 mil hectares e é dotada de 1.149 lotes com 100 hectares cada. Foram expedidos 52 mandados de prisão preventiva, 146 mandados de busca e apreensão e 29 medidas proibitivas em 10 municípios de Mato Grosso, além de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. A investigação comprova que os trabalhadores rurais clientes da reforma agrária foram aliciados, coagidos e ameaçados para venderem ou entregarem os lotes, avaliados em R$ 1 milhão cada um. Até o momento, 33 pessoas foram presas. A estimativa é que cerca de 80 fazendeiros concentrem aproximadamente mil lotes da União que haviam sido destinados à reforma agrária. A fraude alcança R$ 1 bilhão, correspondente ao valor total das terras invadidas pelos fazendeiros.


Os repasses
Doações da Fiagril em 2014

Presidente Dilma Rousseff (PT) ; R$ 80 mil
Senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) ; R$ 350 mil
Deputada federal Fátima Lúcia Pelaes (PMDB-AP) ; R$ 380 mil
Governador eleito Pedro Taques (PDT-MT) ; R$ 300 mil
Deputado estadual Dirceu Camilo Cosma (PV-MT) ; R$ 80 mil
Deputado estadual Valdir Mendes Barranco (PT-MT) ; R$ 20 mil

Doações da Fiagril em 2010

Deputado Neri Geller (PMDB-MT) ; R$ 50 mil
Presidente Dilma Rousseff (PT) ; R$ 30 mil

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