Da ofensa ao protesto

Da ofensa ao protesto

Vítima de professor universitário organiza manifestação contra as agressões na próxima segunda-feira, na Esplanada. O intuito é denunciar e exigir do Poder Público punição adequada aos crimes raciais

» LUIZ CALCAGNO Colaborou Manoela Alcântara
postado em 04/12/2014 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Dificuldades para dormir, tristeza, medo de ser agredida e sensação de impunidade. Esses foram os traumas experimentados pela produtora de eventos Claudenice Nascimento Chagas, 30 anos, após sofrer ofensas racistas em uma boate de Águas Claras. O acusado da agressão, o professor universitário Rones Borges, 33, foi autuado em flagrante por injúria racial, mas liberado em seguida, após pagar fiança de R$ 1 mil. Quatro dias após o crime, a vítima se divide entre a necessidade de falar sobre o caso, para pedir a punição ao agressor, e a dor de reviver o momento cada vez que se lembra do rosto de Rones perguntando se ela ;já se olhou no espelho; e chamando-a de ;macaca; repetidas vezes.

A violência ocorreu no último domingo. Claudenice estava com a amiga e modelo Tanjara Santos Lima, 27 anos, e um policial militar. O suspeito abordou Tanjara, pediu o telefone dela e disse que a conhecia da internet. Ela não passou os contatos. O professor perguntou se poderia ficar perto dela. A produtora disse que o local era público. Inconformado com a negativa, ele encarou a promotora de eventos, que, incomodada, trocou de lugar com a amiga. Daí, o homem passou a ofendê-la, xingando-a de feia. Disse que a promotora parecia uma ;macaca; e que não deveria frequentar lugares como aquele.

Claudenice ficou sem reação e começou a chorar. O policial militar, que não estava a serviço, abordou o acusado, chamou o segurança. O grupo e Rones foram para a 21; Delegacia de Polícia (Taguatinga Sul). ;Eu me senti muito humilhada. Eu não tenho paz, não consigo dormir e me sinto mal a todo momento. Não consigo sequer me olhar no espelho. Estou à base de remédios;, desabafou Claudenice. Mesmo assim, a produtora de eventos quer fazer um protesto na Esplanada dos Ministérios na próxima segunda-feira.

Segundo ela, apesar de todo o mal-estar, somente as denúncias podem cessar esse tipo de agressão. ;Ele me agrediu. Doeu como um tapa. Marcou demais;, recordou. Tanjara compartilha a revolta com a amiga. ;Agora, temos que mostrar que pessoas como ele não têm espaço em uma sociedade igualitária. Nem todo o estudo do mundo adianta para alguém que age como ele.;

Debate racial


Segundo o professor do Instituto de Artes e membro do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros da Universidade de Brasília Nelson Inocêncio, a sensação de impunidade de Claudenice tem fundamento. Segundo ele, é comum que ;delegados; menosprezem a agressão imputando ao autor o crime de injúria racial, em vez de racismo. ;O racismo é pior. É inafiançável. Quando esse tipo de discriminação acontece, é evidente que existe uma postura antipática ao grupo. É preciso orientar os profissionais da área de segurança. A maneira correta não é minimizar o dano, mas punir da maneira adequada;, afirma o professor.

Para a presidente da Comissão de Direitos Humanos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do DF, Indira Quaresma, agressões como as proferidas por Rones se repetem porque o autor do crime ;geralmente conta com a impunidade;. ;Eles acham que a vítima não fará boletim de ocorrência.;

O secretário executivo da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, Giovanni Harvey, concorda com Nelson Inocêncio. ;Há a dificuldade para as autoridades policiais de tipificar a conduta racista. Felizmente, o Ministério Público do DF e Territórios é atuante. Imagino que, com o processo, o MP consiga definir se o professor será punido por racismo ou injúria;, argumentou.

A reportagem não conseguiu contato com Rones Borges. O Instituto Federal de Brasília (IFB), onde o agressor leciona, informou, por meio de nota, que o professor não será punido pela instituição, pois o episódio ocorreu fora do instituto.


Memória
Fevereiro de 2014
A cobradora Claudinei Gomes, 33 anos, foi xingada de ;negra ordinária e preta safada;, por uma passageira, no trajeto Santa Maria/M Norte.

Uma australiana, residente no país há cinco anos, recusou-se a fazer as unhas com uma manicure negra, em um salão da 115 Sul, a quem ofendeu de ;raça ruim; e exigiu que a profissional ficasse longe dela. Levada à 1; DP, a estrangeira repetiu as agressões contra uma agente negra da Polícia Civil.

Outubro de 2013
O contador Kim Furtado, negro, foi chamado de ;retardado; por uma caixa de banco, ao tentar fazer um depósito de R$ 50 mil. A funcionária quis saber a origem do dinheiro e só acreditou em Kim quando um amigo branco confirmou a história do contador.

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