Governo impõe manobra fiscal

Governo impõe manobra fiscal

Estratégia da oposição de tentar obstruir votação não conseguiu impedir avanço do projeto que livra o Executivo da obrigação de alcançar o superavit primário nas contas públicas em 2014 como determina a LDO

Rosana Hessel
postado em 04/12/2014 00:00
 (foto: Ailton de Freitas/ Agência O Globo

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(foto: Ailton de Freitas/ Agência O Globo )


Depois de 14 horas exaustivas de muita discussão, a base do governo no Congresso Nacional conseguiu eliminar os obstáculos à aprovação do projeto de lei do Executivo que altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e elimina a meta fiscal de 2014, o polêmico PLN n; 36/2014. Contudo, as discussões se prolongaram noite adentro e, até o fechamento desta edição, a proposta ainda não tinha sido colocada em votação.

Em meio à longa batalha entre governo e oposição, que tentou de todas as formas obstruir o andamento dos trabalhos, estavam travando a pauta dois vetos presidenciais que foram mantidos e um projeto de lei que libera recursos para aposentados e participantes do Aerus (fundo de pensão dos trabalhadores das empresas Varig e Transbrasil, entre outras) que foi aprovado. Depois disso, 16 requerimentos que tentavam obstruir a pauta foram derrubados.

Para o líder do PT na Câmara, deputado José Guimarães (CE), a oposição errou a estratégia. ;Eles apenas tentaram cancelar a sessão. Não foi o que a gente imaginava;, disse. O petista contou que os aliados do governo montaram uma força-tarefa para convocar os parlamentares e garantir o quórum durante toda a sessão.

O projeto de alteração da LDO desobriga o governo, que gastou mais do que arrecadou ao longo do ano, de realizar superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública). Com isso, fica afastada a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff ser acusada de desrespeito à Lei Orçamentária.

O Ministério da Fazenda havia se comprometido a economizar R$ 99 bilhões, ou 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB), mas estimativas de analista apontam para um deficit de até R$ 30 bilhões neste ano. O PLN n; 36 não estipula uma nova meta fiscal, mas amplia o limite dos descontos que podem ser considerados no cálculo do resultado. De R$ 67 bilhões, os abatimentos passam a um valor equivalente à totalidade das despesas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e com as desonerações tributárias, que, de janeiro a outubro, já chegaram a R$ 140 bilhões. Ou seja, mesmo se o setor público fechar 2014 com saldo negativo, o objetivo terá sido cumprido.

O Executivo empenhou-se intensamente para eliminar a meta fiscal, com o objetivo de não prejudicar a governabilidade do próximo mandato de Dilma. Tanto que, por meio de um decreto publicado na última sexta-feira, a presidente aumentou em R$ 10,3 bilhões as verbas do Orçamento neste ano. E, num gesto interpretado como barganha, condicionou a liberação de R$ 444 milhões para emendas parlamentares à aprovação do PLN n; 36. A oposição entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a medida, que considera inconstitucional.

Um dos maiores críticos da manobra fiscal do governo, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) reiterou que Dilma cometeu crime contra a Lei de Responsabilidade Fiscal (LFR). ;O PT votou contra essa lei;, destacou. ;Perdemos a eleição, mas não perdemos a condição de ser oposição deste governo, que vem cometendo irresponsabilidades atrás de irresponsabilidades;, afirmou ele, lembrando que os brasileiros pagarão as consequências com a elevação dos juros, como foi feito ainda ontem pelo Banco Central.

Aécio demonstrou indignação em relação ao decreto de condicionamento das emendas. ;A presidente coloca de cócoras o Congresso Nacional ao estabelecer que cada um aqui tem um preço;, bradou o tucano. ;O governo institucionalizou a chantagem. Isso é uma vergonha.; O senador, que é presidente do PSDB, se disse ;estarrecido; com o que ocorreu nos últimos dias no Congresso.

Riscos
Para analistas, os atropelos para a aprovação do PLN n; 36 aumentam a desconfiança de investidores e abrem espaço para o rebaixamento da nota de crédito do país no início de 2015 pelas agências internacionais de risco, apesar do voto de confiança dado pelo mercado à nova equipe econômica de Dilma, comandada pelo economista Joaquim Levy, que assumirá o Ministério da Fazenda.

;O governo está tentando resgatar a credibilidade perdida nos últimos anos ao indicar um ortodoxo como Joaquim Levy para a Fazenda, mas, do jeito que foi conduzido, esse processo abre uma preocupação não somente com esse fator, mas com diversos outros pontos importantes que o governo se propôs para o ano que vem;, disse o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. ;Qual investidor vai querer apostar num país em que a regra do jogo pode ser alterada a qualquer momento?;, questionou. ;A credibilidade do governo está mais arranhada do que nunca. Isso é inquestionável;, pontuou.

O relator do PLN n; 36, senador Romero Jucá (PMDB-RR), minimizou qualquer risco à credibilidade do país no mercado, e reforçou o parecer favorável à aprovação do projeto. ;As contas precisam fechar porque é preciso sinalizar estabilidade econômica e política para o próximo ano. Acho que o governo aprendeu uma lição. Essa crise foi pedagógica e o Executivo já ajustou os números para o próximo ano, exatamente diminuindo o tamanho das metas que quer alcançar. Metas que seriam inatingíveis, como seriam esse ano também;, afirmou.

Perdemos a eleição, mas não perdemos a condição de ser oposição deste governo que vem cometendo irresponsabilidades atrás de irresponsabilidades;
Aécio Neves, senador PSDB-MG

Aprendizado da oposição
Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, está havendo uma mudança interessante no cenário político e uma inversão dos papeis no Congresso. ;A oposição está aprendendo a fazer oposição. Vai chegar em determinado momento em que vão arregaçar as mangas e por a mão na massa;, explicou.Na terça-feira, o DEM ajuizou no Supremo Tribunal Federal (STF), uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) para suspender os efeitos do decreto da presidente Dilma Rousseff que condiciona a liberação de recursos de emendas parlamentares à aprovação da mudança na meta fiscal de 2014.

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