Frustração na indústria retrata o país

Frustração na indústria retrata o país

postado em 04/12/2014 00:00


A situação da indústria nacional assemelha-se à de um barco avariado com tempestade pela frente. Enquanto as nuvens no horizonte próximo ficam carregadas, com expectativa de raios, na forma de aperto fiscal, e trovoadas, simbolizadas pelos juros em alta, a produção cai em 16 de 24 setores pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora tenha patinado e ficado estável em outubro, em relação a setembro, o indicador despencou 3,6% na comparação com o mesmo mês do ano passado e acumula queda de 3% nos 10 primeiros meses de 2014.

Os resultados estão piores do que o esperado. A expectativa era de avanço mínimo, de 0,3%, entre setembro e outubro. Mas a realidade revelou empate, ou seja, estagnação, frustrando os analistas. Para o ano, as apostas são de retração, com perda de 3% devido à incapacidade de recuperação. Assim como o IBGE, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) atesta a paralisia. Nem a injeção de cerca de R$ 150 bilhões no mercado com o pagamento do décimo terceiro salário, somada ao impulso das vendas no Natal, altera o quadro, uma vez que os estoques estão em alta.

O comércio até empurra o faturamento para cima ; 3,1% em outubro, frente ao mês anterior. Contudo, as horas trabalhadas estão em baixa (0,3%), assim como o uso da capacidade instalada (0,5 ponto percentual). Em outras palavras: sobra para o trabalhador. Por um lado, a massa salarial real e o rendimento médio devem fechar 2014 em alta. Mas o emprego está ladeira abaixo há oito meses, tendo caído mais um pouco, 0,1%, em outubro, com base em setembro. Nessa conjuntura, o prenúncio é de dificuldades crescentes, ao menos até que a economia seja trazida de volta ao eixo da estabilidade depois dos efeitos colaterais dos remédios amargos a serem prescritos pela nova equipe.

A recuperação plena, contudo, vai depender de bem mais do que as necessárias correções de rumo internas. Basta ver o saldo da balança comercial. Este ano, tivemos o pior novembro da história de nosso comércio exterior, com deficit de US$ 2,35 bilhões. E antes que os muito otimistas imaginem ter sido esse resultado isolado, pode-se dizer que foi sim atípico, mas com força para apontar para o primeiro saldo anual negativo desde 2000 ; portanto, em praticamente uma década e meia. Até o governo já admite, no confronto das exportações com as importações, fechar 2014 no vermelho.

Isso posto, fica claro que a indústria não sairá sozinha do atoleiro. Até para adquirir motor próprio mais potente, item de primeiríssima necessidade, carece de regulamentações, desburocratizações, reforma fiscal e por aí afora, que somente conseguirá com esforço conjunto do Executivo e do Legislativo. E a competitividade ainda dependerá de significativa melhora da infraestrutura e do ambiente de negócios, com inflação sob controle, juros baixos, mercado aquecido etc. etc. Em suma, é torcer para o segundo mandato de Dilma suprir o que o primeiro ficou a dever.


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