Justiça na berlinda

Justiça na berlinda

Júri de Nova York decide não levar a julgamento o policial branco que matou um cidadão negro, com o país ainda sob impacto da onda de distúrbios por uma deliberação semelhante tomada há uma semana

postado em 04/12/2014 00:00
 (foto: Shannon Stapleton/Reuters)
(foto: Shannon Stapleton/Reuters)





Pouco mais de uma semana depois de o não indiciamento do policial branco que matou o jovem Michael Brown despertar a revolta das comunidades negras nos Estados Unidos, um júri de Staten Island, em Nova York, decidiu ontem não levar a julgamento outro agente de segurança envolvido na morte de um afro-americano. Segundo a rede de televisão CNN, o júri isentou de processo o policial Daniel Pantaleo, branco, pela morte de Eric Garner, em julho passado. Autoridades da metrópole já esperavam uma forte reação, qualquer que fosse a decisão do júri, e reforçaram o aparato de segurança. No fim da tarde, manifestantes já se reuniam em Nova York para protestar contra a decisão.

A metrópole já havia sido palco de protestos nos dias que se seguiram ao desfecho do caso de Brown, na cidade de Ferguson (Missouri). Os distúrbios se espalharam por 37 dos 50 estados americanos. Atos contrários à decisão do júri de Staten Island foram convocados para a noite de ontem em diversos pontos de Nova York. Centenas de pessoas se reuniram na Times Square para cobrar ;justiça; . ;William Bratton (comissário de polícia) deve ser demitido, mas Bill De Blasio (o prefeito) disse que apoia o policiamento agressivo;, afirmou o manifestante Stan Williams ao jornal The New York Times.

Manifestações foram registradas na estação Grand Central Station e ativistas convocaram um ato durante o evento marcado para ascender as luzes da árvore de natal do Rockefeller Center . Em Washington, manifestantes planejavam marchar em direção à Casa Branca.

Garner, 43 anos, foi abordado por policiais por ser suspeito de vender cigarros ilegalmente. A ação policial foi registrada em vídeo, que mostra a vítima imobilizada pelo pescoço, procedimento proibido no Departamento de Polícia de Nova York. Depois de sinalizar que estava com dificuldades para respirar, Garner, que era obeso e asmático, perdeu a consciência. Ele foi declarado morto no hospital, e os legistas classificaram o episódio como homicídio, mas as evidências não foram suficientes para acusar o policial Pantaleo. Garner deixou seis filhos.

Segundo o jornal Daily News, a viúva, Esaw Garner, reagiu com indignação à notícia de que Pantaleo não seria indiciado. ;Oh, meu Deus, é sério? Estou muito desapontada. Você pode ver no vídeo que ele (o policial) estava totalmente errado!”, protestou.

Compromisso
Logo após o anúncio do júri, o presidente Barack Obama reiterou que está ;absolutamente comprometido; com o princípio de que todos os americanos são iguais perante a lei. ;Quando qualquer um neste país não for tratado com igualdade perante a lei, temos um problema. É meu dever ajudar a resolver isso;, declarou.

Diante da reação popular, o prefeito Bill De Blasio prometeu melhorar as relações entre a polícia e os grupos minoritários da população, além de clamar por manifestações pacíficas. ;A cidade de Nova York tem orgulho de uma poderosa tradição de se expressar por meio de protestos não violentos. Confiamos que aqueles que estão insatisfeitos com a decisão do grande júri tornarão sua visão conhecida por meios pacíficos e construtivos;, incentivou.

O governador do estado, Andrew Cuomo, lamentou a morte de Garner e sugeriu que as circunstâncias do caso sejam investigadas pelo governo federal. ;O sistema judiciário permite investigações adicionais e revisões, e pode ser apropriado que o governo federal faça isso.; Apesar da decisão do júri, o comissário de polícia de Nova York, Bill Bratton, afirmou à imprensa que três investigações relacionadas ao caso estão sendo conduzidas, e podem levar a processos civis. A família de Garner indicou que pretende mover ação contra o Departamento de Polícia pedindo uma indenização de US$ 75 milhões.


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