De amor e desamor

De amor e desamor

postado em 04/12/2014 00:00

O poeta Nicolas Behr está lançando mais um livro de poesia, A teus pilotis. ;Anunciaram a utopia/mas foi brasília/que apareceu;. Logo adiante, na mesma página: ;adoro brasília! adoraria/acreditar nisso;. O novo livro de Nicolas é um único poema, multiplicado em muitos, cara e coroa de amor e desamor, admiração e estranhamento.


;Poder executivo/poder legislativo/poder judiciário/poder aquisitivo;. Nicolas está brigando com a quadratura do poder. É uma Brasília odienta, a do poder, a da burocracia, a da corrupção, a da ostentação.


Há também uma Brasília muito pouco funcional, demasiadamente monumental. E o poeta parece querer uma Brasília perfeita ; utópica como a desejaram. Mas, se perfeita, inumana.


É aí que nos perdemos, os que amamos e odiamos não amar Brasília. Queríamos que ela fosse à imagem e semelhança de Deus, como queríamos divinizar nossa pobre condição humana.


O poeta descola Brasília do Brasil ; talvez quisesse que Brasília fosse Paris: ;e o flâneur/virou/flanelinha;.
Brasília é brasileira e seria uma esquizofrenia urbana inédita, se assim não fosse.


Mesmo submerso nas contradições da capital, Nicolas Behr consegue emergir para um poema lúdico, uma historinha de ninar brasiliensezinhos. ;sendo a única cidade/cujo formato/de borboleta/se vê claramente/do espaço sideral/brasília é referência/para as espaçonaves/que passam/pelo deserto/cerratense/para serem/reabastecidas de areia/o combustível/mais barato/para propulsão/de foguetes espaciais/da categoria camelo.;


O poeta brinca, mas o poema está atordoado. Brasília não nos aquieta, nos inquieta. Não há Brasília que dê conta do desconserto humano, da algaravia urbana. O poeta quer incluir Brasília na história da humanidade. Imagina a invasão nazista (;a queda de brasília é iminente/e mudará o curso da história;). A queda de Constantinopla: (;galés otomanas ocupam o paranoá/e tomam o alvorada pela retaguarda;).


É o que Brasília faz com a gente: nos deixa sem chão diante do extraordinário, do incompleto, do imperfeito. O poeta escava a terra: quer assentar na história a fundação de Brasília.


Nicolas Behr cai na armadilha, confunde Brasília com o Brasil: ;comemorar o quê?/ a corrupção/generalizada/ou mais uma cpi/que não deu em nada?/comemorar o quê?/ a cultura oficialiesca/ou o presidente/de odalisca?/comemorar o quê?/o gênio criador/da raça/ou o corrupto/que passa?;.


O poeta protesta, ironiza a Brasília dos concurseiros: ;passou no concurso/público/mas nunca o chamaram/matou-se tomando litros/de tinta de carimbo/(fez questão de ser enterrado com os editais);.
A Brasília do 19; livro de Nicolas Behr é a Brasília do Plano Piloto.
É aí que mora o perigo.
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P.S. O lançamento de A teus pilotis será no dia 11 próximo, no Espaço Cena, 205 Norte, a partir das 18h.

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