"Só não vale xingar a mãe"

"Só não vale xingar a mãe"

» DIEGO PONCE DE LEON
postado em 04/12/2014 00:00
 (foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press - 19/6/08)
(foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press - 19/6/08)


Adriano e Fernando Guimarães nunca trabalharam sozinhos. O primeiro projeto surgiu a partir dos dois e, desde então, todos os demais foram na mesma linha. ;Se surgir a vontade para um projeto solo, não haveria qualquer dificuldade. Mas não aconteceu;, garante Adriano.

Com tantos anos de convivência profissional, as funções são bem definidas. Fernando cuida mais da questão do texto, dos atores, enquanto Adriano se debruça sobre o visual, a cenografia. Nada que impeça um ou outro de interferir seja no que for. ;A gente briga todos os dias. Mas somente por trabalho;, comenta Fernando, aos risos.

A própria entrevista revela a afinidade que os une de maneira tão íntima. Fernando termina as frases de Adriano. Adriano lembra de passagens que Fernando se esqueceu. Os dois se completam. Uma cumplicidade pessoal, que acabou sendo levada aos palcos e instalações mundo afora. ;Só não vale xingar a mãe;, brincam, quase em uníssono.

Em Brasília

Embora sejam recebidos com carinho em cidades como Rio e São Paulo, e encarem longas temporadas por lá, os Guimarães não esboçam qualquer vontade de deixar Brasília. Contrariando alguns diagnósticos, eles não acreditam que o panorama cênico da capital federal esteja pior do que de outros centros.

;O teatro está em outro momento. Não é Brasília. Em qualquer lugar, temos uma concorrência para combater. Temos que encarar a violência que impede as pessoas de saírem às ruas, a televisão no conforto de casa, o cinema;, sugere Fernando.
Eles também não parecem muito preocupados com a ascensão de gêneros, como comédia ou musical. ;É uma afirmação mercadológica. O mesmo vale para a literatura ou para os filmes. Quem mais vende livros, hoje em dia? Será que Kubrick colocaria milhões de pessoas em uma sala de cinema, como o fez no passado?;, questiona Adriano. No teatro, de acordo com os diretores, não é diferente.

Voltados para um processo de construção cênica profundo e longo, os Guimarães não costumam fazer concessões e preferem fugir do óbvio. Destarte, tornaram-se referências nacionais quando o assunto passa pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett, por exemplo, embora sejam igualmente referenciados ao falarmos de Nelson Rodrigues ou Shakespeare.

O lema que os guia não reflete nada complexo. Pelo contrário. Fernando resume essa motivação em uma única pergunta: ;O que estamos a fim de fazer?;. E Adriano responde: ;Somente o que nos emociona;.

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