Correio Econômico

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Piora geral

postado em 13/12/2014 00:00

Se a vida da nova equipe econômica de Dilma Rousseff já se mostrava difícil, devido ao estrago que a presidente provocou no país nos últimos anos, tudo indica que a situação ficará pior com a queda dos preços das commodities (mercadorias com cotação internacional) e a disparada do dólar. Há um temor crescente entre os analistas de que, mesmo com o ajuste fiscal prometido por Joaquim Levy, futuro ministro da Fazenda, o Brasil seja rebaixado pelas agências de classificação de risco.
Trata-se de um quadro complexo. Ao longo dos últimos anos, a forte valorização das commodities escondeu as ineficiências do Brasil. Mesmo com a péssima infraestrutura e o excesso de burocracia, o país acumulou excelentes saldos comerciais. À medida, porém, que os preços dos grãos e dos minérios foram caindo, refletindo a desaceleração da China, grande compradora desses produtos, a realidade foi se impondo. O superavit comercial minguou, a ponto de, neste ano, o país registrar o primeiro deficit na balança desde 2000.
Com a queda dos preços das commodities, veio à retração das exportações. Ou seja, o Brasil perdeu receitas com as mercadorias que mais vende e ainda viu encolher a demanda por produtos de maior valor agregado, como automóveis, devido, principalmente, à crise na qual estão mergulhadas a Argentina e a Venezuela, importantes parceiros comerciais. O resultado disso foi um rombo recorde nas contas externas ; nos quatro anos de Dilma, o buraco atingiu US$ bilhões 272 bilhões, quatro vezes mais do que nos oitos anos de Lula ; e o aumento da vulnerabilidade do país a choques internacionais.
Na avaliação de Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Partners, a tendência é de os preços das commodities se estabilizarem num patamar baixo em 2015, fazendo com que os resultados da balança e das contas externas sejam muito ruins. O governo espera, porém, que, com a recente valorização do dólar, os produtos manufaturados fiquem mais competitivos no mercado internacional, compensando as perdas com grãos e minérios.
Pode ser que, mais à frente, realmente isso venha a acontecer. Mas, antes, a nova equipe econômica terá que lidar com os efeitos da alta da moeda norte-americana sobre a inflação. Pelos cálculos do Banco Central, a cada 10% de elevação da divisa, o impacto no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é de 0,5 ponto percentual ao longo de 12 meses. Como a carestia já está acima do limite da tolerância, de 6,5%, o custo de levar a inflação para o centro da meta, de 4,5%, será maior.

Para Velho, a valorização do dólar deve se acentuar diante da antecipação do aumento das taxas de juros nos Estados Unidos. As apostas são de que o Federal Reserve (Fed) não resistirá muito mais tempo à necessidade de ajustar à política monetária ao fortalecimento da maior economia do planeta. Com rombo externo recorde e maior aversão ao risco, o Brasil ainda deve sofrer com a mudança no perfil de crescimento da China, mais voltado para o mercado interno do que para as exportações.
;Tudo está conspirando contra os países emergentes, em especial o Brasil, que está com as contas públicas desajustadas e um elevado deficit externo. Nos últimos 30 dias, a taxa que mede o risco de o país dar calote, o CDS (Credit Default Swap), uma espécie de seguro, aumentou de 165 para 210 pontos, ou seja, 27,2%;, assinala o economista.
No entender dele, a percepção em relação ao Brasil também vem piorando por causa da Petrobras, que está se desmanchando, sugada pela corrupção. A estatal tem ganhando com a queda do petróleo no mercado internacional. Tanto que a gasolina aqui está 30% mais cara que no exterior e o óleo diesel, 25%. Mas de pouco adianta isso, pois o ganho está sendo comido pela disparada do dólar, uma vez que 80% do endividamento da companhia são lastreados na moeda norte-americana.


De olho
na TJLP

; Os investidores vão acompanhar com lupa a reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) deste mês. Há a expectativa de que o governo comece, já sob recomendação de Nelson Barbosa, futuro ministro do Planejamento, a aumentar a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que corrige os financiamentos concedidos pelo BNDES. O indicador pode passar de 5% para 5,75% ao ano.

Excesso de
equívocos

; A grave crise que abala a reputação, o valor de mercado e as perspectivas da Petrobras é a coroação de uma série de equívocos do governo Dilma envolvendo as maiores estatais brasileiras. Para Cláudio Frischtak, da Inter.B Consultoria, a gestão petista conseguiu a proeza de criar, intencionalmente ou não, uma fórmula capaz de tornar grandes empresas dependentes do Tesouro Nacional.

Desordem
nas estatais

; Na opinião de Frischtak, a fórmula elaborada pelo governo combina a crescente redução de receitas com a ampliação das despesas compulsórias e das áreas de atuação, além de mudanças nos respectivos marcos legais para institucionalizar a arapuca. ;Esse processo destrutivo atingiu a Petrobras, a Eletrobras, os Correios e a Infraero. Seus episódios de corrupção se somam a balanços no vermelho e a problemas para financiamentos;, sublinha.

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