A esmola, segundo Luiz Gonzaga

A esmola, segundo Luiz Gonzaga

EDSON BEÚ Jornalista, mestre em história, estuda os candangos e a construção de Brasília
postado em 13/12/2014 00:00



Na época da construção de Brasília, o Nordeste vivia uma das piores secas. Enquanto muitos sertanejos partiam em retirada para as terras do Sul, outros cambaleavam de fome em seus torrões, imobilizados pelo próprio infortúnio. Mesmo assim, não faziam ofício na mendicância, sustentados por uma força sujeita a aflorar ao menor estímulo e, de súbito, transfigurá-los nos ;titãs acobreados; descritos por Euclides da Cunha.

O mestre Luiz Gonzaga traduziu sabiamente, em meia dúzia de palavras, o sentimento de seu povo no lamento de Vozes da Seca: ;Mas doutor uma esmola/a um homem que é são/ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão;. Viver de esmola feria o caráter que seus conterrâneos defendiam no risco da peixeira há dezenas de estiagens. Por isso, o Rei do Baião pedia apenas oportunidade de emprego: ;Dê serviço a nosso povo;, dizia na canção.

Assim, o anúncio da construção de Brasília soou como um salmo de redenção para milhares de brasileiros, cuja cartilha rezava que a primeira lei natural da sobrevivência era o trabalho. E, como prometia o saudoso sanfoneiro, eles pagaram com juros a oportunidade oferecida, ao concluírem, em tempo recorde, a capital que encantaria o mundo.

Os candangos saltaram a linha da miséria com as próprias pernas. A Carteira de Trabalho assinada garantiu-lhes cidadania, palavra que se tornou vã nas ações do marketing político contemporâneo. Fazendo um breve balanço da empreitada, apontaram a casa própria como a conquista material mais importante ao lado de outros patrimônios igualmente valiosos para eles: família criada, dignidade e respeito dos filhos.

Se o ilustre filho de Exu interrompesse seu forró celestial e olhasse para baixo, qual seria a sua reação ao ver que um em cada quatro brasileiros vive hoje sob a tutela dos Programas de Transferência de Renda (PTR)?

A nação continuará sentada no banco dos réus, acusada de crime hediondo, enquanto ouvir crianças chorando de fome em quaisquer rincões. Todavia, estudos mostram que ações do tipo Bolsa Família minoram as privações das famílias, mas são incapazes de erradicar a pobreza extrema, obrigação mínima e até tardia para um país que ostenta a sétima economia do mundo.

Para não se limitarem a administrar a pobreza, os PTR devem estar articulados a uma política macroeconômica de geração de emprego, que promova a distribuição da renda socialmente produzida e, não simplesmente transferida, entende a professora Maria Ozanira da Silva e Silva em Pobreza, desigualdade e políticas públicas: caracterizando e problematizando a realidade brasileira.

Sob a justificativa de socorrer os excluídos, ações assistencialistas encontraram solo fértil nestes tristes trópicos. A propósito, desmitificando o conceito de exclusão, o educador Paulo Freire esclarece que os chamados marginalizados, na verdade, nunca estiveram ;fora de;, mas, sim, ;dentro de;, isto é, integrados à estrutura social que os transforma em ;seres para outro;, mantendo-os na condição de oprimidos.

Na rudeza de seu universo, os ex-operários de JK orgulham-se por terem propiciado acesso à educação dos filhos, segundo eles, o legado mais importante que deixariam aos herdeiros. Por isso, transcorrido mais de meio século, constitui vergonhoso paradoxo ver o Brasil na última colocação em investimentos na área de educação, na lista dos países avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Resultado: também somos donos das piores notas nas avaliações internacionais de qualidade de ensino, atrás de dezenas de países com PIB infinitamente inferiores.

A pretexto de compensar desigualdades sociais, a educação globalizada optou pelo o que o irlandês Michael Foley chama de ;rejeição da dificuldade e do conhecimento;. O erro tornou-se conceito obsoleto, reprovar compromete as estatísticas e o professor vira marionete, vítima do ;colapso de autoridade; que toma conta do cotidiano das salas de aula. ;O resultado de tudo isso é uma baixa inexorável dos padrões, o que ninguém no campo educacional tem permissão para admitir;, afirma o autor de A era da loucura. Isso explica porque entra ano e sai ano e nada se faz.

Na década do ;engraçado; ABC do Sertão, de Luiz Gonzaga, emprego e analfabetismo conviviam nos canteiros de obra de JK. Hoje, na era da tecnologia da informação, isso seria virtualmente impossível, motivo mais do que suficiente para eleitos e reeleitos fazerem, com urgência e qualidade,o dever de casa.

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