Conexão diplomática

Conexão diplomática

por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 13/12/2014 00:00
 (foto: Jewel Samad/AFP -24/9/14)
(foto: Jewel Samad/AFP -24/9/14)

Quem te viu,
quem te vê;



As expectativas externas para a virada de ano no Brasil, a esta altura, são mínimas, praticamente nulas. E, na falta de alguma surpresa, a impressão que se consolida entre os parceiros é de que os próximos quatro anos serão a continuidade dos últimos quatro: da quase ;hiperatividade; da diplomacia presidencial nos anos Lula, o país passou a exibir uma quase ;letargia; na era Dilma. E, se a conjuntura doméstica de crise ajuda a explicar o perfil discreto assumido pelo país no primeiro mandato, os indicadores disponíveis até aqui não sugerem que algo de significativo possa acontecer no segundo, a ponto de estimular o apetite, seja no Planalto, seja no Itamaraty.

Nas duas semanas e meia que faltam para a posse, a pergunta mais imediata no corpo diplomático é quanto ao comando do ministério, embora não tenha transpirado nenhuma indicação de que a presidente pense, ao menos por ora, em substituir o ministro Luiz Alberto Figueiredo. Visto como um diplomata de perfil mais ;técnico; do que ;político;, o chanceler não dá asas a voos mais altos da imaginação. É quase consenso de que, no vai da valsa, a política externa brasileira seguirá mais ou menos como um avião de carreira em altitude de cruzeiro e no piloto automático, seguindo o plano de voo traçado no computador até mais uma aterrissagem rotineira.

Para quem viveu as piruetas e arremetidas da dupla Lula-Celso Amorim, restam os versos de Chico Buarque: quem viu mal reconhece; quem só ouviu falar vai continuar na confiança cega.

Gangorra na Esplanada
Em conversas mais reservadas, parece predominante entre os parceiros do país a impressão de que, na alternância entre Antonio Patriota e Luiz Alberto Figueiredo, o Itamaraty perdeu espaço para o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais. Marco Aurélio Garcia, que todos aprenderam a chamar de ;professor;, é visto como a voz mais influente na definição das linhas-mestras da ação externa. Se com Celso Amorim a gangorra pendeu para o lado sul da Esplanada, no primeiro mandato de Dilma o deslocamento foi no sentido contrário ; e 2015 se anuncia com o centro de gravidade deslocado para o Planalto.

Quase no prelo
Um reflexo claro desse movimento pendular é o atraso na conclusão e publicação do ;livro branco; da política externa, concebido para ser um documento de Estado para a pasta, mais do que um programa de governo. Fruto de uma concorrida série de colóquios promovida pelo Itamaraty no primeiro semestre, a publicação deveria estar pronta até o fim de 2014 e foi cobrada do chanceler durante audiência no Congresso, mas ficou para o ano que vem.

Flerte insistente
Mais uma vez, o vice de Obama, Joe Biden, foi encarregado de trazer a Brasília, na visita que fará para a posse, o convite reiterado à presidente para que remarque a visita de Estado a Washington, cancelada no ano passado em resposta ao escândalo da espionagem americana sobre o governo brasileiro. Como aconteceu em ao menos outras duas ocasiões, é o Departamento de Estado que cuida para que a notícia chegue ao público, enquanto o lado brasileiro mantém silêncio. Mas a aparente indiferença ao flerte soa para alguns observadores como charme puro. Segundo essa interpretação, ambos os lados teriam a ganhar com a reaproximação, inclusive e principalmente no campo estritamente político ; já que, em matéria de ganhos econômicos e comerciais, qualquer mudança significativa vai custar mais tempo e muito latim de parte a parte.

Vão os dois?
Um teste para o alcance desse certo reatamento virá logo em abril, com a Cúpula das Américas, marcada o Panamá. Na última edição, na Colômbia, a resistência de Washington foi suficiente para que o anfitrião, Juan Manuel Santos, encontrasse uma maneira elegante de não ter Cuba entre os participantes. Mas o restante da América Latina e do Caribe fechou questão e Dilma, na ocasião, levou à Casa Branca o recado de que não haveria ;próxima vez; sem a presença cubana. E Havana já confirmou que enviará representante.

Fica a pergunta para o outro lado: Barack Obama irá ao Panamá, para talvez cumprimentar Raúl Castro pela segunda vez?


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