Gás do riso contra a depressão

Gás do riso contra a depressão

Pesquisadores dos EUA testaram a inalação de óxido nitroso em 20 pacientes. Duas horas depois, 85% relataram melhoras nos sintomas da doença. Especialistas ressaltam que a técnica precisa ser mais estudada

» Vilhena Soares
postado em 13/12/2014 00:00
Uma famosa substância anestésica utilizada em consultórios odontológicos pode ser a nova esperança de tratamento para a depressão. O óxido nitroso, conhecido como gás do riso, foi testado como medicamento em pessoas que sofrem com o distúrbio psiquiátrico e, segundo cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, amenizou quase que imediatamente sintomas como tristeza e pensamentos suicidas em 85% deles.

Outro anestésico também tem sido estudado para o tratamento da depressão ; quetamina ; o que abriu as portas para os experimentos com o óxido nitroso. ;Presumimos que eles têm algum mecanismo de ação semelhante;, justifica ao Correio Peter Nagele, professor assistente de anestesiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington e autor principal do novo experimento.

Para testar os efeitos do gás do riso, os cientistas selecionaram 20 pacientes com depressão e que não apresentavam melhoras ao serem submetidos a tratamentos tradicionais. Os voluntários foram submetidos a um teste com duas fases. Em uma, receberam mistura de gás composto por metade de oxigênio e metade de óxido nitroso. Em outra, um placebo. Nem os participantes nem os pesquisadores sabiam a ordem em que as composições foram inaladas.

Após duas horas de cada sessão e também no dia seguinte, os participantes foram questionados sobre a intensidade dos sintomas depressivos. Dezessete relataram melhoras em diferentes graus. Três não sentiram qualquer efeito após a terapia experimental. ;Quando receberam o óxido nitroso, muitos relataram uma melhora rápida e significativa;, informa Charles Conway, professor associado de psiquiatria da Universidade de Washington e um dos autores do trabalho. ;Embora alguns pacientes também tenham declarado se sentirem melhores depois de respirarem o gás placebo, ficou claro que o padrão geral observado foi de que o óxido nitroso melhorou a depressão além do placebo;, complementa.

Para os cientistas, o grande ganho do trabalho experimental foi a melhora apresentada em pouco tempo após o uso do gás. ;A maioria dos pacientes relatou se sentir melhor duas horas depois do tratamento com óxido nitroso. Um efeito muito adiantado se compararmos com o de típicos antidepressivos orais que em média demoram duas semanas para exercer os efeitos benéficos;, acrescenta Conway.

A observação é a mesma feita por Thiago Blanco, psiquiatra do Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF). ;Apesar de ter sido feita com um número reduzido de pessoas, essa pesquisa mostra dados interessantes para área psiquiátrica. O efeito rápido de euforia abre caminho para novas oportunidades terapêuticas, já que um dos grandes problemas para o tratamento de pessoas em estado grave de depressão é a demora para que os remédios façam efeito;, destaca o especialista que não participou do estudo.

Complemento
Blanco acredita que, se o gás do riso passar a ser usado clinicamente contra a depressão, ele funcionará como uma ferramenta auxiliar. ;Ao tratar rapidamente, evitamos que a pessoa sofra com sintomas mais graves, como pensamentos suicidas, trazendo, assim, mais segurança. Os remédios usados para combater a depressão já são muito eficazes. Essa possível nova estratégia pode funcionar como um complemento;, acredita.

Segundo o psiquiatra do hospital brasiliense, a quetamina e possivelmente o gás nitroso agem em um receptor do cérebro chamado NMDA, ligado a neurotransmissores importantes para o equilíbrio do corpo, como a serotonina. ;Ambos têm um grande potencial, mas é necessário analisar mais cuidadosamente em trabalhos realizados com um número maior de pacientes;, ressalta Blanco.

Rafael Boechat, psiquiatra do Hospital Universitário da Universidade de Brasília (UnB), alerta que algumas dessas substâncias provocam efeitos semelhantes ao de ácidos ingeridos de forma recreativa, e estão envolvidas em problemas psiquiátricos, como psicoses, quando usadas em excesso. ;Por muito tempo, temos visto esses testes com cautela, tomando cuidado para que, em vez de tratar, não agravemos a situação do paciente;, explica.

Os autores do trabalho, publicado, nesta semana, na Biological Psychiatry, concordam com a necessidade de experimentos mais abrangentes usando o óxido nitroso. Eles planejam testar diferentes concentrações do gás do riso para avaliar como cada uma influencia os sintomas da depressão. ;Pretendemos encontrar o melhor regime de dosagem olhando para um grupo maior de pacientes. É uma surpresa que ninguém nunca pensou em usar uma droga que faz as pessoas rirem como um tratamento para pacientes cujo principal sintoma é a tristeza em excesso;, destaca Nagele.


Palavra de especialista

Um desafio médico

;A pesquisa envolvendo novas moléculas para o tratamento da depressão ainda é um desafio para os pesquisadores da área farmacológica. O óxido nitroso pode ajudar em tratamentos, mas ainda não existem dados suficientes, com estudos bem fundamentados, que indiquem que ele é eficaz. Sempre é importante pesquisar moléculas para o tratamento farmacológico dos transtornos mentais, mas cabe ressaltar que estudos com metodologias adequadas e número adequado de pacientes devem ser feitos antes de a substância ser autorizada para o uso clínica;
Tatiana Mourão, psiquiatra e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação