O vento lá fora, de Marcio Debellian

O vento lá fora, de Marcio Debellian

» Vanessa Aquino
postado em 13/12/2014 00:00

Em um estúdio, filmadas em preto e branco, duas mulheres falam sobre uma paixão em comum: Fernando Pessoa. Quem são as mulheres? Uma delas é Maria Bethania, irmã de Caetano Veloso, e responsável por uma mania nacional do poeta lusitano, ao interpretar versos do poeta português em shows e gravá-los num disco antológico, Rosa dos Ventos. A outra é uma estudiosa da literatura, a professora universitária da UFRJ Cleonice Berardinelli, que começa a ficar conhecida fora dos círculos acadêmicos pela vivacidade intelectual que demonstra no apogeu dos seus 98 anos.

A dupla interage muito bem, guiada pelos versos de Pessoa. Se Bethania é a estrela, a outra é quem conduz o jogo. Amparada tanto no imenso conhecimento do poeta, como na sabedoria como escande os versos, atenta ao ritmo e à métrica, Cleonice dita as regras. O filme, portanto, é tanto sobre Pessoa como sobre ela.

Dona Cléo, com toda a didática de uma professora e conhecimento profundo e sólido do autor, fala de Pessoa, ele mesmo, e das particularidades dos heterônimos, Álvaro de Campos (;o divã do poeta, dizendo aquilo que ele não tem coragem de dizer;), o lírico Ricardo Reis, Alberto Caieiro (;o mestre;).

É possível perceber no documentário, um desafio para as duas, que é trazer à vida, pela voz, o que está no escrito. Poesia, dizem alguns, deve ser dita em alto e bom som, deve vibrar com a emoção da voz humana. Se as cordas vocais são instrumentos da poesia, elas enfrentam com maestria o desafio. Um aspecto técnico que merece destaque diz respeito ao modo como a câmera é incorporada à linguagem quando encontra as faces das duas personagens. Desse modo, a imagem captura o tempo nas expressões de Bethania e Dona Cléo. O tempo que passou para elas e que é exposto com serenidade.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação