Inflação ameaça as famílias

Inflação ameaça as famílias

Carestia abrirá 2015 próxima de 7%. É possível que, neste ano, a renda dos lares tenha a primeira queda real desde 2003

VICENTE NUNES DIEGO AMORIM
postado em 01/01/2015 00:00
A dona de casa Eliana de Araújo Santos, 38 anos, sabe muito bem o quanto a inflação é perversa, sobretudo com os mais pobres. Pouco antes do Natal de 2014, ela decidiu preparar um frango para o almoço, a fim de fugir dos sucessivos reajustes da carne bovina, que havia subido 20% desde janeiro. Saiu de casa com R$ 10, imaginando voltar com o produto e, se possível, o troco para o pão do dia seguinte. ;Escolhi o frango mais descongelado, para não pesar tanto, e, ainda assim, deu R$ 13. Não me esqueço do susto que tomei;, conta. Para não deixar os filhos, Gabriel, 4, e André Felipe, 2, sem uma refeição ;decente;, recorreu a um mexido. ;É de assustar;, diz o marido, Ednaldo, 41.

Eliana não entende por que o governo deixou a inflação ficar tão alta. ;Quem vai ao supermercado sabe que o discurso da presidente Dilma Rousseff, de que tudo está sob controle, não é verdade;, afirma. A dona de casa sabe do que fala. Desde que a petista tomou posse, em 2011, a carestia não deu trégua, ficou sistematicamente no teto da meta, de 6,5%. Nos últimos quatro anos, o custo de vida acumulou alta de 27%. E não ficará muito distante disso no segundo mandato, que começa hoje. ;Não dá mais para conviver com aumentos tão fortes;, reclama Eliana. ;Dinheiro não traz felicidade, acredito nisso. Mas arroz e feijão têm que ter na mesa. As crianças precisam comer;, desabafa.

Cautela
A dona de casa conta que os R$ 370 de tíquete-alimentação que Ednaldo recebe não são mais suficientes para a compra do principal do mês. Em seis meses, calcula ela, o carrinho com os mesmos produtos encareceu cerca de 30%. Para não afetar tanto o padrão de vida da família, os iogurtes da criançada estão ficando de fora e as marcas mais baratas passaram a ser priorizadas. O marido dela tem ido ao trabalho de ônibus para economizar combustível e evitar que o carro, ano 1996, quebre, demandando despesas extras. ;Paguei R$ 10 mil à vista pelo carro em 2012, dinheiro que poupei com sacrifício. Hoje, não consigo fazer sobrar R$ 1 do orçamento;, reclama Ednaldo.

Na avaliação de Carlos Thadeu de Freitas Gomes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), os brasileiros como Eliana e Ednaldo terão que ter muita cautela com os gastos em 2015. Tudo ficará mais caro ; no primeiro trimestre, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passará de 7% ;, já que o governo decidiu cair na real e corrigir distorções que estavam levando o país para o atoleiro. A maior pancada no orçamento das famílias virá da energia elétrica, com aumento de 8% em janeiro e, na média, de 30% em todo o ano. ;O poder de compra das famílias ficará comprometido;, complementa Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos. Pelos cálculos dele, é possível que, neste ano, pela primeira vez desde 2003, a renda dos lares tenha queda real.

Portanto, avisa o economista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) José Luiz Oreiro: ;Antes de melhorar, a situação vai piorar muito;. Para ele, ainda que a nova equipe econômica tenha autonomia para fazer os ajustes necessários na economia, será tarde demais para evitar estragos nos orçamentos domésticos provocados pela perversa combinação de inflação persistente e pelos juros altos.

;O custo de derrubar a carestia de maneira rápida seria uma recessão sem precedentes;, diz Oreiro. ;Então, veremos medidas graduais, que só mostrarão resultados efetivos a partir de 2016. Foram muitos os erros do governo. O maior deles, ter brincado com a inflação. Agora, mesmo com o crescimento próximo de zero da economia, a taxa básica de juros (Selic) ; hoje, em 11,75% ao ano ; terá que subir mais, talvez para 12,50% ou 13%;, assinala.

Diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton Araújo tenta minimizar a situação. E garante que, ao fim de 2016, a inflação estará no centro da meta, de 4,5%, coisa nunca vista no governo Dilma. ;Nossas estimativas acompanham a conjuntura do momento;, justifica ele, sem grande convicção. O dado oficial do BC, por sinal, mostra inflação de 5% no encerramento do segundo ano do novo mandato da petista.

Para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, não há espaço para ilusões. ;Não vai ter jeito. Em 2015, mesmo que imaginemos o melhor dos mundos na política fiscal, teremos inflação alta, juros subindo, crédito caro e baixo crescimento;, prevê. O jeito, destaca ela, será torcer para que o governo reconstrua a credibilidade da política econômica, para que o Brasil possa ter um 2016 melhor. ;Por ora, o que temos é um cenário tremendamente desafiador;, reforça.

Angústia

A família de Conceição Vaz do Santos, 25 anos, está apreensiva. Não sabe se, neste segundo mandato, Dilma conseguirá arrumar a casa, como se espera de uma governante comprometida com o bem-estar da população. ;A cada ida ao supermercado, a angústia só aumenta. Leite, feijão, carne, arroz, pão. Tudo está mais caro. Posso dar uma lista imensa de coisas cujos preços aumentaram;, diz ela. A situação financeira complicou tanto, que o filho Miguel, 2, ficou sem presente no Natal passado. Faltou dinheiro. ;Não houve condições. Tivemos que definir prioridades e fazer renúncias;, lamenta.

O marido da jovem passou em um concurso público e aguarda a nomeação. A estabilidade do funcionalismo nunca foi tão desejada pela família. ;Antes, só ouvia meus pais falarem sobre inflação e não entendia nada. Hoje, estou sentindo na pele e no bolso;, afirma Conceição. Em um período como o atual, ela sabe a importância de poupar. Mas não consegue. ;Meu salário cai na conta e, no dia seguinte, some;, ressalta. Se o dinheiro não sobra, para proteger a família, a dona de casa pensa em recorrer aos estoques de produtos não perecíveis, postura comum nos tempos de hiperinflação. ;Vamos ver o que será 2015 e o que a Dilma fará;, acrescenta.

A hiperinflação, por sinal, continua alimentando uma praga resistente: a indexação da economia, que dificulta o controle dos preços no país. Cerca de 30% dos produtos e serviços que compõem o IPCA são corrigidos pela inflação passada. Esse problema, em algum momento, terá de ser atacado. ;Mas, primeiro, o governo precisa derrubar a inflação. Essa é a prioridade do momento;, insiste Zeina Latif.

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