DNA selecionado

DNA selecionado

Série sobre a domesticação de plantas e animais chega ao fim mostrando como a engenharia genética elevou imensamente a capacidade do homem de dominar a natureza

» ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 01/01/2015 00:00
O genoma é um quebra-cabeça de múltiplos contextos, com milhões de peças que possibilitam cenários infinitos, de acordo como são organizadas. Até recentemente, a combinação desses fragmentos ocorria por meio de um processo natural de evolução, iniciado milênios atrás. Hoje, contudo, a engenharia genética permite ao homem manipular o DNA em busca de um resultado desejado, uma tecnologia que levou à atual era da superdomesticação, ou a interferência nos genes para que animais e plantas possam trazer mais benefícios à humanidade.

A única diferença entre a prática atual e as estratégias de seleção de plantas e animais empregadas no passado é a ciência. O processo e o fim, essencialmente, continuam os mesmos. Antes, não existiam computadores nem se ouvia falar de genes ou do papel do DNA na transmissão de características hereditárias. Assim, as seleções eram feitas a partir de um manejo quase braçal. Era preciso esperar que uma vaca crescesse e começasse a fornecer leite para saber se era uma boa produtora. O mesmo com outros animais, como galinhas e touros.

Com esse método clássico, o tempo para avaliar um animal demorava de cinco a seis anos. ;Afinal, o touro precisa crescer e amadurecer reprodutivamente, além de ter filhotes. Esse procedimento padrão, chamado de melhoramento clássico, vem sendo utilizado massivamente com todos os animais de produção desde os anos 1960. Entretanto, por ser mais demorado, também é mais caro;, aponta Alexandre Rodrigues Caetano, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, e líder do Projeto Rede Genômica Animal.

Apesar de parecer algo quase futurista, a bioengenharia começou a ser moldada em 1865, quando o botânico Gregor Mendel apresentou suas ideias sobre a hereditariedade de características. Mais tarde, entre 1930 e 1940, os geneticistas Ronald Fisher, inglês, e Sewall Wright, norte-americano, desenharam métodos estatísticos para identificar animais geneticamente superiores. Os dois, entretanto, não puderam aplicar suas fórmulas porque, na época, não existiam sistemas de processamento (no caso computadores) que pudessem executá-las.

Em 1980 e 1990, quando a tecnologia da computação ganhou espaço, o conhecimento sobre os genomas fez com que os cientistas imaginassem ser possível adicionar informações moleculares de animais e plantas nos métodos estatísticos. Na metade da década de 2000, essa combinação passou por uma verdadeira revolução, bem descrita pela Lei de Moore. Essa teoria prevê que, a cada seis meses, a capacidade dos computadores dobra. Mas quando se fala em geração de dados moleculares, nos últimos 10 anos, essa lei foi praticamente estraçalhada, uma vez que a potência computacional muito mais do que dobrou. ;Saímos de uma realidade em que custava US$ 10 para gerar um dado molecular. Hoje, custa menos de US$ 0,01;, diz Caetano.

Resistência
A finalidade da aplicação desses métodos é praticamente a mesma em plantas e animais. Hugo Bruno Correa Molinari, pesquisador da Embrapa Agroenergia, também na capital federal, explica que as várias técnicas ; cultivo in vitro de plantas, engenharia genética e DNA recombinante ; permitem criar ou manipular uma espécie para agregar valor ou modificar toda a produção em benefício humano.

Na Embrapa Agroenergia, o trabalho se concentra em vegetais e tem três objetivos principais: modificar a parede celular da planta para criar etanol de segunda geração; ampliar o conteúdo de biomassa; e aumentar a resistência da cana para o estresse abiótico, mais especificamente tolerância à seca e ao alumínio tóxico presente no solo. Dentro dessas linhas, existem vários projetos em parceria, um deles com o Japão.

A equipe internacional já identificou um grupo de genes que confere a algumas plantas a capacidade de suportar a seca. O material foi desenvolvimento, e os genes, inseridos nas espécies. ;Percebemos, em laboratório, que as plantas se mostraram tolerantes a esse estresse, o que nos motivou a passar para as próximas etapas. Fizemos nova parceria com o Centro de Tecnologia Canavieira e pedimos autorização para a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para a etapa interessante, que é desafiar essas plantas às condições de seca nos campos;, explica.

Molinari rebate críticas constantes aos produtos da transgenia. Segundo ele, os pesquisadores estudam todos os mecanismos e como cada gene funciona em todas as etapas. Assim, há conhecimento sobre cada estratégia de engenharia genética utilizada. ;Ainda temos a validação dos resultados e a prova de conceito para chegar a um material que seja interessante.; Ele destaca que as amostras são submetidas a uma série de avaliações para provar o conceito científico de que aquele material realmente funciona.

;Temos, ainda, que seguir normas para assegurar que o produto é seguro para a alimentação animal e humana e também para o meio ambiente. Eu considero todas essas ferramentas formas de promover o melhoramento e nos ajudar a gerar materiais interessantes para o consumo humano. Consigo, de células indiferenciadas, formar órgãos e regenerar uma planta transgênica completa, como folha, pomo e raiz. A partir de uma única célula, com uma nova informação, conferimos às plantas capacidades que elas não têm.;


Duas perguntas para
Alexandre Rodrigues Caetano, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, e líder do Projeto Rede Genômica Animal

Em que estágio o Brasil está no melhoramento animal?
Estamos uns dois anos atrasados, mas isso nos dá a oportunidade de aprendermos com a experiência dos outros. Na Embrapa, temos projetos com gado de corte, de leite, caprinos e ovinos para implementar e adicionar essas tecnologias nos programas de melhoramento. Por exemplo, as raças zebuínas, que vieram de países da Ásia, como a Índia, são mais resistentes aos carrapatos porque coevoluíram com os parasitas. Então, se um gado nelore, que é zebuíno, for submetido a um campo infestado, ele será atacado por três carrapatos. Já uma raça taurina, como a Braford, criada no Sul do Brasil, sofrerá muito mais. A Embrapa tem um projeto em andamento para oferecer a resistência zebuína aos taurinos. Outro projeto consiste em construir criadouros de alguns peixes, como tambaquis e surubins, que ainda estão em processo de domesticação. O máximo que há nesse sentido são produtores que têm, se muito, cinco gerações desses peixes, que foram removidos da natureza.

Quais são os pontos fracos e fortes da biotecnologia?
Às vezes, é preciso repensar

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