O que peço a 2015

O que peço a 2015

postado em 01/01/2015 00:00

Quero perder o medo da morte.
Quero que a morte exista em mim como de fato existe.


Quero ser índio e monge budista ; a morte morre todos os dias em cada um de nós.


Quero me banhar de esquecimento do que foi ruim e do que pode vir a ser.


Quero aprender a usar a velha máquina de costura e ouvir o cântico da agulha juntando partes esquecidas.
Quero tocar o fundo do rio com os pés e me reencontrar com o todo de onde vim.
Quero plantar salsa e cebolinha e colher cheiros e sabores.


Quero beijar o sono do meu filho e vê-lo acordar sentindo-se protegido.


Quero desejar o que não posso ter, amar o que não me pertence.
Quero aprender a rezar as orações dos que nada pedem para si.
Quero abrir o peito para o imponderável, o inesperado, o imprevisível.
Quero acreditar que tudo só termina quando acaba bem.


Não quero mais perder amigos vivos, porque os mortos estarão comigo sempre.
Quero perceber o movimento invisível dos acontecimentos, os recados do acaso, os avisos das coincidências.
Quero renovar minhas fitinhas do Bonfim com novos pedidos que ficaram colados no pulso por meses a fio. É assim que creio e espero. É assim que rezo.


Quero acordar sem esperar nada do dia, nem de bom nem de ruim. Só o dia, por ele mesmo.
Quero não me esquecer de sou, somos, a consciência da criação.


Quero sempre me lembrar que há em mim um escravo, um índio e um português e que sou a expressão dessa mestiçagem única entre todos os povos da Terra.


Quero, neste 2015, ler mais Blake, Rilke, Withman, T.S. Eliot, Emily Dickinson, João Cabral.
Quero que 2015 me dê tempo para reler Dom Quixote e Grande Sertão: Veredas.
Quero, finalmente, ler Casa Grande & Senzala.


Quero aprender a me concentrar no essencial e brincar com o supérfluo.
Quero rir muito, até quando estiver chorando.


Não quero perder nenhum dos 365 dias do ano-novo. Se, porventura, me couber cumpri-lo do começo ao fim.
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Taca-le pau, 2015. Taca-le, pau!

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