Um mestre para seguir

Um mestre para seguir

Músicos da cidade têm como referência o bandolinista Hamilton de Holanda. Formado em Brasília, ele influenciou uma geração de instrumentistas

» Irlam Rocha Lima
postado em 01/01/2015 00:00
 (foto: Marcos Portinari/Divulgação)
(foto: Marcos Portinari/Divulgação)



Hamilton de Holanda é bacharel em composição pela Universidade de Brasília (UnB). Esse título, porém, não o faz ser chamado de mestre, mas sim o fato de ser considerado atualmente um dos maiores bandolinistas do mundo. Com consolidada carreira internacional, o carioca de 38 anos, que iniciou a trajetória na capital, constitui-se na mais importante referência para instrumentistas brasilienses.

Dudu Maia, Victor Angeleas, Tiago Tunes e Ian Couri estão entre os que, empunhando o bandolim, brilham pelo país e assumem a condição de ;discípulos; de Hamilton. Todos veem nele virtudes como talento, técnica, virtuosismo, tanto como solista quanto como compositor e arranjador. Os discípulos destacam, ainda, a generosidade na relação com os companheiros de ofício. ;Hamilton tem um abraço tamanho do mundo, que acolhe todos nós;, afirma Dudu Maia.

;Recebo como um presente o reconhecimento desses músicos brasilienses de diferentes faixas etárias pelo trabalho que realizo, com o bandolim como a base de tudo;, diz Hamilton, emocionado. ;É uma alegria imensa ver que surgiram seguidores em minha cidade tocando um instrumento que é fundamental nas rodas de choro, mas que não chega a ser tão popular em outros segmentos da MPB, muitos até o confundem com o cavaquinho;, acrescenta.

Bandolinista desde os 5 anos, Hamilton começou a tocar em público ainda na infância, quando formou o Dois de Ouro com o irmão e violonista Fernando César ; o nome da dupla foi dado pelo saudoso Pernambuco do Pandeiro. Mesmo sendo elogiado desde então, só algum tempo depois o duo lançou o primeiro disco, no início dos anos 1980. Ainda com o César, Hamilton gravou um outro CD, depois seguiram outros 26 de Hamilton com diversas formações.

;Desde o álbum do Trio Brasília Brasil (ao lado dos violonistas Rogério Caetano e Daniel Santiago), um pouco antes de me radicar no Rio de Janeiro, no começo da década passada até este ano, gravei com muita gente em diferentes formações, incluindo o Quinteto, grupo que me acompanha e é formado basicamente por músicos brasilienses;, destaca. Os mais recentes são o solo Caprichos e o Bossa negra sendo esse último uma parceira com o sambista Diogo Nogueira.



;Roqueiro na adolescência, me apaixonei pelo bandolim ao ouvir o Reco (Henrique Filho) tocar o instrumento certa noite no Clube do Choro. Em outro momento, ao acompanhar minha mãe a uma roda de choro, da qual participou o Dois de Ouro, fiquei impressionado com a performance do Hamilton de Holanda. Logo em seguida, comprei um bandolim Del Vechio e passei a ter aulas com Hamilton, numa salinha que alugava na W3 Sul. Naquela época, o Dois de Ouro estava lançando o CD A nova cara do velho choro. Integrei, por um tempo, o grupo Choro de Calango, mas ainda tocava guitarra e violão, que apreendi com o mestre Alencar 7 Cordas. Aí, o Hamilton disse que eu deveria me dedicar ao bandolim. Busquei me aprimorar e, em 2003, quando ele foi morar no Rio, o substituí como professor na Escola Brasileira de Choro. Tenho realizado trabalhos solo e em grupo, lancei discos e, desde 2006, estou à frente de um workshop de choro em Townsend, em Washignton. Muito disso devo aos ensinamentos que recebi do Hamilton;.

Dudu Maia, 38 anos



;Eu tinha 7 anos quando comecei a ter aulas de bandolim com o Marcelo Lima e de harmonia e arranjo com o Pedro Vasconcellos. Durante um ano e meio, fui aluno do Marcelo, nas Escola de Choro. Aos 8, fiz minha primeira apresentação em público. Desde então, tenho tocado em vários lugares. Atualmente, comando uma roda de choro no Bier Fass, no Pontão do Lago Sul, aos sábados, de 15 em 15 dias; e aos domingos, no Café do Chefe, na 210 Norte. É grande a minha admiração pelo Hamilton ao vê-lo com o bandolim de 10 cordas. Já toquei com ele várias vezes, inclusive no projeto Choro Solidário. Ele e o Armandinho Macedo, que me convidou para participar do show que fez recentemente no Clube do Choro, são minhas principais referências;.

Ian Coury, 12 anos



;Comecei a me dedicar à música aos 7 anos de idade, como aluno de piano e violão da BSB Musical. Aos 13, assistindo a uma apresentação dos alunos da Escola Brasileira de Choro, fiquei impressionado com o som do bandolim e quis logo comprar um. Me matriculei na Escola de Choro, na qual tinha como professor o Dudu Maia. Assisti a um show do Trio Brasília Brasil, liderado pelo Hamilton de Holanda, e me impactei com o som que ele tirava do bandolim de 10 cordas. Comprei um instrumento semelhante e, integrando o grupo Sai da frente, passei a ter o Hamilton como referência. Vejo-o como um músico versátil. Tudo o que ele produz como solista, compositor e arranjador, produz com maestria. Generoso, depois de ouvir o Sem fronteiras, CD que gravei com o acordeonista Juninho Ferreira, ele escreveu um texto elogioso na apresentação;.
Victor Angeleas, 25 anos



;O bandolim faz parte da minha vida desde a infância. Aos 7 anos, passei a ter aulas de bandolim com o Marcelo Lima, que havia sido aluno do Hamilton de Holanda. O Marcelo era professor da Escola de Choro, na qual também estudei com o Dudu Maia. Naquele tempo, frequentava com minha mãe a roda de choro do quiosque Tartaruga, na UnB. Ela, então, me deu um bandolim. Aos 10 anos, ao ouvir o Hamilton no Clube do Choro, tive a impressão que estava diante e um mestre pelo virtuosismo, modernidade e exuberância que exibia ao tocar o instrumento. Tempos depois, participei de rodas de choro ao lado dele e acabamos nos tornando amigos. Acabei de gravar meu primeiro disco que tem no repertório três músicas inéditas do Hamilton: Chuva, que ele compôs com o Fernando César; Choro do circo e Dante, que fez para o filho do César;.

Tiago Tunes, 17 anos


Você sabia?

Mestre Jacob
A origem do bandolim é o mandolim, que surgiu na Itália entre os séculos 16 e 17 como evolução da família do alaúde. A popularização do instrumento levou importantes compositores como Beethoven, Prokofiev e Vivaldi a dedicarem peças a ele. Com o passar do tempo, sua difusão pelo mundo fez com que surgissem diferentes nomes e características estruturais. No Brasil, o bandolim forma historicamente o conjunto básico com o cavaquinho, o violão e a flauta, na execução de choros e tem em Jacob do Bandolim a principal referência.

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