Brasileiros candidatos a santo

Brasileiros candidatos a santo

Rosane Garcia rosanegarcia.df@dabr.com.br
postado em 12/01/2015 00:00

Por mais de quatro anos, em meados da década 1980, fui colaboradora da Pastoral da Criança, em Brasília. Ao lado da irmã Helena ; irmã carnal de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, e da doutora Zilda Arns, criadora da ação em favor dos pequeninos e dos idosos ;, fazia o jornal mensal da pastoral. A cada edição, vivíamos momentos de grande alegria e de profunda tristeza. Nunca precisávamos repetir imagens, que eram estarrecedoras. Era o retrato, sem nenhum retoque, do Brasil famélico e ignorado pelas autoridades.

A cada edição, em média, publicávamos quatro retratos do antes e do depois de crianças beneficiadas pela multimistura, pelo soro caseiro. A diferença era muito grande. As imagens do antes mostravam o quanto o interior do nosso país se assemelhava aos países africanos abatidos pela fome, como Etiópia e Somália. Eram cenários que consternavam o mundo e mereciam campanhas globais promovidas por artistas renomados e a solidariedade de outras nações, inclusive do Brasil. No entanto, não víamos ações semelhantes voltadas para sanar as mazelas do meio rural ou dos guetos brasileiros.

As imagens do depois eram fantásticas: crianças fortes, sorridentes ao lado das mães alegres com a regeneração dos filhos. A comparação, exibida nas páginas do jornal da Pastoral da Criança, era emocionante. Lembro da dr; Zilda, em passagens por Brasília, para acompanhar a chegada de balanças ou para contatos com as autoridades do governo federal. Ela se empenhava diuturnamente para espalhar, por todos os cantos, os benefícios da multimistura (um composto de diversos cereais e oleaginosas) e da farinha da folha de mandioca, rica em vitamina A, usada na prevenção da cegueira por hipovitaminose, principalmente no Nordeste.

Entre os muitos entusiastas da Pastoral da Criança, estava dom Luciano Mendes de Almeida, à época bispo da região de Belém, em São Paulo, depois transferido para o município mineiro de Mariana, onde serviu ao povo até morrer, em agosto de 2006. Ele reconhecia na Pastoral um dos mais importantes instrumentos de políticas públicas contra a fome e a miséria que chocavam os setores mais sensíveis da sociedade, mas excluídas das prioridades nacionais.

Em maio do ano passado, o Vaticano acolheu o pedido de abertura de processo de beatificação de dom Luciano. Ele foi um homem que deu exemplos com uma vivência intensa de um dos principais mandamentos da Igreja ;amai-vos uns aos outros como a ti mesmo;. Agora, mais de 200 mil brasileiros subscrevem pedido semelhante em favor da dr; Zilda Arns, morta 12 em janeiro de 2010, no terremoto que devastou o Haiti. Ambos deixaram muita saudade e tiveram um vida pautada na prática permanente da solidariedade e do amor ao próximo. Em tempos tão conturbados, como eles fazem falta.

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