De braços dados contra a barbárie

De braços dados contra a barbárie

Em uma incrível demonstração de união, 3,7 milhões de franceses saem às ruas para lembrar as vítimas dos ataques recentes. Em Paris, líderes de vários países se unem a cerca de 2 milhões de pessoas

Gabriela Walker Gabriela Freire Valente
postado em 12/01/2015 00:00

;Hoje, Paris é a capital do mundo, o país todo se levantará com o que tem de melhor;
François Hollande, presidente da França









Os franceses tomaram as ruas de Paris ontem em uma gigantesca demonstração de união, indignação e solidariedade com as vítimas dos ataques sofridos na última semana. Dezenas de líderes mundiais participaram do simbólico evento, batizado de Marcha da República, caminhando de braços dados em frente à multidão. Foi o maior evento da história da França contra o terrorismo. ;Hoje, Paris é a capital do mundo, o país todo se levantará com o que tem de melhor;, disse o presidente François Hollande.

Essa foi a primeira vez que a população tomou as ruas da capital com força tão expressiva desde a liberação de Paris no fim de Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1944. O ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, confirmou que o número de manifestantes foi muito maior do que o esperado, tornando ;impossível; contabilizar os presentes. Estimativas indicavam que entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas em Paris se juntaram à marcha. Em todo o país, foram cerca de 3,7 milhões.

Cidadãos de todas as idades, religiões e origens começaram a se reunir no início da tarde, com faixas e cartazes que exaltavam os ideais da república francesa de ;liberdade, igualdade de fraternidade;. ;Eles queriam deixar a França de joelhos. Em vez disso, fizeram a Europa se levantar;, dizia um cartaz. ;Derramem tinta, não sangue;, ;Façam humor, não façam guerra;, ;Sou muçulmano, mas não terrorista;, diziam outros. Um menino foi fotografado com uma placa que afirmava: ;Quando eu crescer, serei jornalista. Eu não tenho medo!”

Em diferentes momentos, a multidão parou para aplaudir os policiais ; três oficiais foram mortos nos ataques iniciados na quarta-feira, com a invasão da revista Charlie Hebdo. Ontem, cerca de 2,2 mil homens da polícia e da gendarmeria, força de segurança armada do país, acompanharam as demonstrações. Um total de 5,5 mil homens foi mobilizado para garantir a tranquilidade. ;Foram adotadas todas as medidas para que essa manifestação possa transcorrer em um clima de recolhimento, respeito e segurança;, garantiu o ministro Cazeneuve.

Líderes mundiais
A marcha saiu da Praça da República às 15h30 (12h30 de Brasília). Antes, representantes de mais de 40 países se encontraram com Hollande no Palácio do Eliseu. Ao lado do presidente francês, caminharam vários líderes mundiais, como a chanceler alemã, Angela Merkel; o líder da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas; o primeiro-ministro israelense, Benjamim Netanyahu; e os premiês britânico, David Cameron, e espanhol, Mariano Rajoy. Em sinal de respeito, eles se mantiveram poucos metros atrás de familiares e amigos das vítimas.

Assim como o Brasil, os Estados Unidos foram representados por seu embaixador na França. O chanceler marroquino, Salaheddine Mezouar, prestou condolências à França, mas preferiu não participar da marcha ;em razão da presença de charges blasfematórias do profeta;.

Em mais um gesto de união, o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, rival político de Hollande, se juntou à marcha acompanhado pela esposa, Carla Bruni. A líder do partido de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen, que não foi convidada para o evento, optou por participar de uma manifestação na cidade de Beaucaire, sul da França.

Após a marcha, Hollande e outros líderes foram a uma homenagem às vítimas dos ataques na Grande Sinagoga de Paris. Quatro dos que perderam a vida nos incidentes eram judeus. Netanyahu enalteceu a ;determinação; do governo francês em combater o ;novo antissemitismo;.



O tombo da premiê
A premiê da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, foi flagrada indo ao chão ao sair do Palácio do Eliseu para participar da marcha. As longas botas de salto alto a traíram quando ela descia o último dos seis lances da escada. A chefe de governo recebeu a ajuda de três pessoas, entre as quais um homem que não conteve o riso. Em dezembro de 2013, Helle, 48 anos, causou polêmica ao ser fotografada, sorridente, numa selfie com o presidente americano, Barack Obama, durante as cerimônias fúnebres de Nelson Mandela.



O abraço do presidente
O presidente da França, François Hollande, e o médico Patrick Pelloux, colunista da revista satírica Charlie Hebdo, protagonizaram um dos momentos mais emocionantes da marcha. Visivelmente comovido, o líder francês abraçou Pelloux, que escapou do massacre de quarta-feira porque participava de uma reunião da Associação de Médicos de Emergência da França, a qual ele preside.

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