Na Nigéria, terrorismo não comove multidões

Na Nigéria, terrorismo não comove multidões

Novos ataques suicidas deixam mais quatro mortos . Analistas destacam que os atentados no país têm pouca repercussão se comparados aos que ocorrem na Europa

PAULO SILVA PINTO RODRIGO CRAVEIRO
postado em 12/01/2015 00:00
 (foto: Boko Haram/AFP - 2/10/14
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(foto: Boko Haram/AFP - 2/10/14 )


Em um dia de novos ataques terroristas na Nigéria, analistas chamam atenção para as diferenças de repercussão e de preocupação que essas ações provocam entre as autoridades europeias quando comparadas às que ocorrem no próprio território delas. Ontem, duas mulheres-bombas, uma delas de 20 anos e a outra de 15, mataram quatro pessoas em dois atentados no mercado de Potiskum, cidade no nordeste nigeriano. Ficaram feridas 21 pessoas. Embora ninguém tenha assumido a autoria da agressão, o procedimento sugere a responsabilidade do grupo islamita Boko Haram, que costuma recrutar mulheres e meninas dispostas a realizar ataques suicidas.

;Há pesos e medidas diferentes para o que acontece na Europa e em outros locais. Não é uma questão de discriminação, mas de prioridade;, pondera Magnus Ranstorp, especialista em terrorismo pelo Colégio de Defesa Nacional da Suécia. ;Embora a situação do Boko Haram seja difícil de resolver, os britânicos estão ajudando o governo nigeriano;, afirmou. Para ele, a única maneira de combater o grupo de modo mais eficiente é conseguir o envolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU).

Pequenas ações de terroristas são cada vez mais frequentes, sobretudo na Nigéria e em outros países em desenvolvimento. No nordeste do país, as mortes chegaram a milhares na semana passada. Ontem, houve duas explosões em lojas de celulares em Potiskum ; não há, por ora, notícias de feridos. No sábado, um carro-bomba já havia atingido uma delegacia da cidade, deixando dois mortos, um policial e um motorista. O veículo pertencia a um homem que havia sido preso e levado ao local ; ele não morreu.

Em outra localidade da região, Maiduguri, capital do estado de Borno, houve um atentado suicida com a morte de 20 pessoas em um mercado. Outras 20 ficaram feridas. Segundo uma testemunha, a bomba explodiu quando uma menina que aparentava ter não mais de 10 anos era revistada. Os explosivos estavam amarrados ao corpo dela.

São centenas os mortos em todos os atentados no nordeste do país. Em Baga, um vilarejo de pescadores às margens do lago Chade, membros do Boko Haram entraram de carro atirando com metralhadoras e jogando granadas a esmo na sexta-feira. Os moradores fugiram sem conseguir contar os mortos, chegaram a 2 mil, de acordo com as estimativas da Anistia Internacional.

Silêncio
Nem o presidente do país, Goodluck Jonathan, nem o principal nome da oposição, Muhammadu Buhari, pronunciaram-se sobre o ataque de Baga. Maiduguri está com vigilância reforçada por militares. Mas soldados afirmam que o dinheiro para a compra de equipamento tem sido desviado por oficiais corruptos. Com isso, eles ficam vulneráveis diante de terroristas que usam armas altamente sofisticadas.

No ano passado,morreram 10 mil pessoas devido aos ataques na Nigéria. E, desde o início da insurgência, há cinco anos, 1,6 milhão de pessoas tiveram de deixar suas casas por insegurança, sobretudo no norte do país, onde predominam os muçulmanos. Essas pessoas estão se instalando na periferia das grandes cidades.

Três unidades federativas no nordeste estão em estado de emergência devido aos ataques na Nigéria, o país mais populoso do continente africano e o maior produtor de energia, com grandes reservas de petróleo.

Califado

O grupo islâmico Boko Haram tenta criar um califado na Nigéria, um país onde diferentes grupos religiosos convivem, incluindo um grande número de cristãos. É liderado por Abubakau Shekau desde a morte do fundador, Mohammed Yusuf, em 2009. Em junho de 2014, o Boko Haram patrocinou o primeiro ataque suicida, usando uma mulher no estado de Gome, no norte nigeriano.


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