Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 12/01/2015 00:00
Lição de humor
;Foi como se tivessem invadido a redação do Pasquim e matado Millôr, Henfil, Ziraldo, Claudius, Fortuna, Redi, Caulos, Miguel Paiva;. Essa foi a reação de um dos craques do Pasquim, o jornalista Sérgio Augusto, ao atentado contra a revista francesa Charlie Hebdo, em Paris, que matou Wolinski, Charb, Jean Cabut e Tignous. Em artigo para O Estado de S. Paulo, Sérgio reconstituiu os bastidores do ataque terrorista sofrido pelo Pasquim em 1970, na sede do jornal, instalada em uma casa de dois andares, entre Flamengo e Botafogo: ;Ninguém quis ser o Pasquim;, constatou Sérgio.

Ele se referia ao slogan que anima as manifestações de rua dos franceses em solidariedade à turma de Charlie Hebdo: ;Je suis Charlie;. Na manhã de ontem, os protestos arrastaram mais de 3 milhões de pessoas, na França, superando várias vezes a multidão que desfila no bloco recifense Galo da Madrugada.

Nos anos 1970, eu era um leitor implacável do Pasquim e toda semana corria à banca da Rodoviária para comprar o jornaleco e apreciar a surpresa que ele trazia, muitas vezes, em linguagem cifrada, mas perfeitamente decodificável por nós, leitores-cúmplices: ;Quem tem jornal tem medo;, dizia uma das chamadas, ecoando uma outra frase muito repetida à época, que, em versão publicável em jornal, seria: ;Quem tem jornal tem medo, estamos com Figueiredo;.

No fim da ditadura, o general João Baptisa Figueiredo, o último dos presidentes impostos pelo regime militar, provocou polêmica ao afirmar, perto da baia de cavalos que tanta apreciava: ;Prefiro cheiro de cavalo a cheiro de povo;. Três dias depois, o Pasquim estampava uma enorme foto de Sua Excelência ao lado de um dos animais, com a seguinte legenda: ;Figueiredo e o cavalo. O cavalo é o da direita;.

O Pasquim aliviou a nossa barra durante o sufoco da ditadura de 1964. As balas e as bombas de efeito hilariante disparadas por aquela turma de guerrilheiros do humor fizeram mais estragos no regime de exceção do que qualquer tiro de fuzil. O documentário A subversão do humor, com direção de Roberto Stafanelli, registrou histórias deliciosas sobre o Pasquim.

Certa vez, Paulo Francis, uma das estrelas do Pasquim, foi convocado para um interrogatório em um quartel. Um coronel acusava o polêmico e irascível jornalista de ter supostamente assinado uma ;monção; de protesto contra a prisão arbitrária do dono da Editora Civilização Brasileira, o editor Ênio da Silveira. Francis negou veementemente. Mas o general se irritou, argumentando que tinha uma cópia do documento com a assinatura de Francis. Ao que o jornalista replicou com o célebre ar superior sobre o restante da humanidade: ;Coronel, eu não assinei nenhuma monção; monção é um fenômeno atmosférico. O que assinei foi uma moção de protesto contra a prisão do meu amigo Ênio da Silveira;.

Lembro-me perfeitamente da notícia do atentado ao Pasquim, publicado apenas nas páginas do hebdô insolente. Parecia uma peça de humor delirante, no entanto, tudo era verdade. Colocaram cinco quilos de bombas na sede do jornal guerilheiro, mas, por imperícia, a carga não explodiu. Li a história, trêmulo e indignado, ao imaginar o que aconteceria se o artefato tivesse detonado.

Contudo, o jornaleco não se intimidou. Respondeu à agressão torpe com uma bomba de efeito hilariante. Publicou uma foto-montagem de todo o primeiro time da redação do Pasquim, com máscaras de caveira: ;Para evitar qualquer futuro atentado, damos, acima, aquilo que tão ardentemente desejam os terroristas: ver nossas caveiras;. Foi uma das maiores lições de coragem e de humor que eu recebi na vida.




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