Um encontro de fé

Um encontro de fé

Em busca de conforto espiritual, fiéis lotam as missas de cura e libertação celebradas em várias paróquias da Igreja Católica. As palavras do sacerdote ajudam a aliviar as angústias e os problemas cotidianos

» Roberta Pinheiro
postado em 12/01/2015 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)







O rosto da feirante Leonita de Araújo Nascimento, 60 anos, contrai-se, os olhos se fecham com força, sem impedir que as lágrimas caiam. Dentro da igreja, em pé ou ajoelhada, ela se comporta quase sempre da mesma forma quando participa das missas de cura e libertação. Nesses encontros, Leonita busca, há 20 anos, a solução para os problemas enfrentados em casa. ;Meu marido é alcoólatra. Tenho um filho viciado em drogas e a nossa situação financeira é complicada;, resume a feirante, que encontrou alento nesse tipo de celebração coletiva e catártica. O rito é o mesmo de uma missa comum. Entretanto, acrescenta-se um momento de oração e entrega, quando todos estendem as mãos em direção ao céu e os pedidos são invocados pelos fiéis em busca de cura espiritual. ;São celebrações mais intensas;, explica Leonita.

Em Brasília, nem todas as paróquias organizam as missas de cura. As que fazem, como a Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago Sul, são procuradas por fiéis de diferentes regiões do Distrito Federal e do Entorno. E até mesmo de outras cidades. As pessoas costumam chegar antes da missa para reservar um lugar e aguardar a entrada do celebrante. No momento da oração destinada a pedir a cura e a solução de problemas, os católicos se ajoelham e se desligam do mundo para total entrega. A banda da igreja toca Abro as portas e te dou livre acesso. Palavras que se assemelham aos depoimentos de quem decidiu confiar no poder espiritual para aplacar as angústias. ;Sinto como se precisasse largar tudo o que estou fazendo e vir. É difícil explicar com palavras;, diz a advogada Thaiane Flores, 31 anos.

Participar das missas de cura e libertação virou uma rotina semanal na vida de Thaiane há mais de 10 anos. ;Chego com uma sensação de impotência diante dos obstáculos da vida, mas saio mais leve e depois vejo resultado;, justifica a advogada. Thaiane enfrentou, no decorrer desses anos, a doença da avó, um divórcio e o difícil processo até a aprovação em um concurso público. Participar das missas é recompensador. ;Traz um bem espiritual;, conclui.

Os fiéis buscam nas palavras dos padres o conforto para as dores que carregam. Enquanto escutam o celebrante rezar e pedir pela cura de doenças, pela união das famílias e pelos desempregados, amenizam o excesso de expectativas e as angústias. ;É uma responsabilidade muito grande corresponder à confiança das pessoas. Elas estão no mundo, sofridas, então, buscamos oferecer momentos de alívio;, diz o padre Vanilson Sousa, que celebra esse tipo de missa há 9 anos, atualmente como pároco da Perpétuo Socorro. Nos dias das missas de cura, a igreja fica lotada. ;Parece a solução dos meus problemas. Venho cheia de expectativas e saio tranquila e confiante;, descreve Mara Rúbia Silva, de 39 anos, filha de Leonita. Católica desde pequena, a empresária acredita que esse tipo de celebração é a real manifestação dos dons do Espírito Santo.

Testemunho

A poucos minutos antes do início da missa de cura e libertação na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o altar fica tomado de pedidos. Os fiéis depositam objetos que simbolizam e representam o motivo que levou cada um até lá. São fotos de parentes, imagens de santos, exames médicos, livros de concursos, roupas, remédios, carteiras de trabalho e até alimentos. No momento de oração, o silêncio é substituído por uma mutidão de vozes. Alguns rezam alto; outros, em tom mais baixo. Entre os corredores e no meio dos fiéis, os chamados intercessores circulam e param diante dos seguidores para fazerem orações. Com as mãos estendidas e sem conhecer a pessoa à frente, tentam, com as palavras, tranquilizar aquele coração.

;Deus está curando um jovem com um tumor do lado esquerdo do pescoço, disse o padre com o Santíssimo apontado na minha direção. Parecia o médico falando comigo. E ainda finalizou dizendo que não precisava me preocupar;, conta o bombeiro Gleidson Caixeta Costa, 33 anos. Receber essa mensagem foi uma das experiências mais marcantes na vida do rapaz. ;No momento, senti um arrepio, uma vontade de chorar e uma alegria muito grande. Tive a certeza de que Deus falava comigo;, descreve. No fim de 2001, Gleidson descobriu que estava com câncer. Segundo ele, tumores malignos apareceram de repente no pescoço. ;Foi um susto. Não tinha histórico familiar;, comenta. A notícia desestabilizou o rapaz, mas fez com que ele voltasse a frequentar grupos de oração e participasse da eucaristia.

Depois do diagnóstico, começaram as sessões de quimioterapia ; uma por mês. Pela intensidade do tratamento, os médicos alertaram que ele e a mulher deveriam se planejar para Gleidson colher semêm, pois, talvez, não pudesse ter filhos mais tarde. O casal não aceitou. ;Queríamos ter um filho pelo método natural. Confiávamos que as coisas acabariam bem;, explica. Transcorridos oito meses de quimioterapia, o bombeiro seguiu para a radioterapia em Anápolis. ;Depois de algumas sessões, os médicos avaliaram meus exames e disseram não entender o por que estava lá, pois não havia necessidade para o tratamento;, relembra Gleidson.

Para ele, a cura ocorreu bem antes, no dia em que aceitou o convite para ir à celebração. ;A medicina só podia decretar que eu estava livre da doença depois de 10 anos. Depois desse prazo, os médicos me deram alta. Nunca mais tive nada;, diz.

Apesar da alegria, Gleidson e a mulher casaram-se com medo de não poder gerar filhos. Rezaram e pediram a intercessão espiritual. ;Hoje, sou pai de três lindos filhos. Sei que a fé me dá força para superar as dificuldades;, finaliza.


Missas de cura

Paróquia São Pedro
; QSD AE 25 Setor D Sul, em Taguatinga
; Quarta, às 19h
; Quinta-feira, às 8h e às 19h

; Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro
; SHIS E/Q QL 6/8 conj. A, no Lago Sul
; Quarta-feira, às 9h
; Última terça-feira do mês, às 20h

Santuário Santa Luzia
; QS 304 conj. 5 lote 1/3, em Samambaia Sul

; Missa da Misericórdia
Todo primeiro sábado de cada mês, às 15h

; Catedral Rainha da Paz
Via Canteiro Central do Eixo Monumental

; Missa da saúde
Toda quarta-feira, às 19h

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação