Bola e Islã: jogadores têm difícil adaptação

Bola e Islã: jogadores têm difícil adaptação

Jogadores brasileiros com passagens por clubes de países muçulmanos relatam dificuldades que viveram na adaptação aos costumes locais, ditados pelas tradições religiosas

postado em 24/01/2015 00:00
 (foto: Fernnando Soutello/Agencia O Globo - 28/3/09
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(foto: Fernnando Soutello/Agencia O Globo - 28/3/09 )

No momento em que se ouve o barulho de uma sirene no CT do Al-Hazm, time de futebol da Arábia Saudita, o elenco interrompe o treinamento ; sempre à noite, por causa do forte calor do deserto. É hora de rezar. Com exceção de três ou quatro jogadores, todo o grupo adere ao ritual: cada homem estende um tapete, ajoelha-se e ora, voltado para Meca. Estão cansados: não comeram nada durante o dia porque é o mês do Ramadã, período de jejum e oração dos muçulmanos. Quando o ex-meia Iranildo atuava na equipe árabe, entre 2006 e 2007, somente ele e os pouquíssimos estrangeiros que não seguiam o Islã podiam manter a dieta normal de atleta naqueles 28 dias de jejum, mas fora do olhar dos colegas sauditas.

Não comer ao lado dos colegas no mês do Ramadã ; que ocorrerá entre 18 de junho e 16 de julho neste ano ; e ter de parar os treinos para as orações são apenas alguns dos choques culturais que atletas ocidentais experimentam quando atuam em países de maioria muçulmana. Na sequência do assassinato de 12 pessoas na sede do jornal francês Charlie Hebdo, que fazia charges com o profeta Maomé, o mundo discute as diferenças culturais e religiosas entre o Ocidente e as nações islâmicas. Na pauta, questiona-se até que ponto a religião representa uma questão de Estado.

Enquanto jogava no futebol saudita, o católico Iranildo não podia ir à igreja para fazer pedidos ou agradecimentos ao Deus cristão. ;Fazia minhas orações sozinho, no meu apartamento mesmo;, relata. Lá, só há mesquitas. A Arábia Saudita ; a exemplo de outras nações islâmicas, como o Iêmen e o Irã ; obedece à Sharia, sistema que aplica os preceitos do Corão, o livro sagrado do Islã, às leis penais e civis. Por isso, mesmo num calor de 50;C, Iranildo tinha de usar calças compridas durante quase todo o dia. Além disso, não podia pensar em abrir uma lata de cerveja, pois o álcool é proibido no país. ;Mas não reclamo de nada, estava na casa deles e tinha de respeitar;, pondera o ex-jogador.

O temor de não se adaptar às regras religiosas do Islã também foi sentido pelo atacante Josiel, ex-Flamengo, agora no Inter de Santa Maria-RS. Entre 2008 e 2010, ele atuou no Al-Wahda de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos ; nação que relaxa as leis da Sharia para não muçulmanos. ;Logo vi que havia muito exagero nesse preconceito. Notei diferenças sim, sobretudo na religião, mas era estranho não poder beber nem suco nas ruas;, recorda.

Hoje, os Emirados Árabes abrigam 16 jogadores brasileiros no campeonato nacional, cinco a menos que o vizinho Catar, com 21 atletas nascidos no Brasil. Apesar de ambos os países adotarem a lei islâmica, o fluxo intenso de empresas e turistas nas principais cidades ; Dubai e Doha ; levam autoridades a serem mais flexíveis com as normas no caso de estrangeiros.

Em dia de jogo do visitante Al-Hazm contra o Al-Wahda de Meca ; onde teria nascido o profeta Maomé ;, a rotina de Iranildo mudava mais uma vez. A cidade do Al-Wahda é centro de peregrinação de muçulmanos e proíbe a entrada de pessoas de outras religiões. ;Precisávamos dar a volta ao redor da cidade até chegar ao estádio, bem longe do centro. Um trajeto que duraria 15 minutos, demorava uma hora;, conta o brasileiro. Quando recebeu a visita da esposa, outro choque. Mulheres não podem sair em público sem vestir um niqab, roupa que deixa apenas os olhos à mostra ;Eu nem a reconhecia, porque parecia um ninja;, brinca o armador.

Chibatadas

Diferentemente dos vizinhos Emirados Árabes e Catar, menos rigorosos com a Sharia em relação aos estrangeiros, a Arábia Saudita tem leis muito severas e uma política mais fechada com outras nações. Turismo, ali, praticamente apenas para muçulmanos visitantes de cidades religiosas. Se algum atleta brasileiro desavisado entrar com bebida alcoólica naquele país, corre o sério risco de ser condenado a levar chibatadas. Caso seja homossexual e mantenha relações com outros homens, pior: há risco de sentença de morte.

A exemplo da Arábia Saudita, o Irã tem leis civis e penais completamente adaptadas ao Corão. Na liga iraniana, 13 atletas brasileiros precisam respeitar as normas islâmicas para evitar dores de cabeça. Até maio do ano passado, o meia-atacante Leandro Chaves, aposta do Brasiliense para 2015, vivia essa realidade. ;No mês do Ramadã, fui comprar uma água durante o dia. Quando abri a garrafa, o vendedor esbravejou que eu não poderia bebê-la ali, só escondido;, conta. O jogador atuava pelo Foolad, campeão iraniano na última temporada.

As rígidas regras de hierarquia do Islã influenciavam também dentro de campo, explica Leandro. Líderes jamais poderiam ser questionados. Protocolos inimagináveis no futebol brasileiro faziam parte da rotina do atleta no Irã. ;Todos tratavam o capitão da equipe como um superior. Na hora do almoço, só poderíamos nos sentar e nos levantar quando ele autorizasse;, completa.

A fé como lei
Países majoritariamente islâmicos podem ou não incluir nos códigos de leis preceitos do Corão, o livro sagrado. Em algumas nações, esse sistema, conhecido como Sharia, é aplicado tanto nas áreas civis ; como nas legislações sobre casamentos e divórcios ; quanto na Justiça Penal. Nesse caso, regras religiosas servem como base para tipificar crimes e definir penas.

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