Racionamento mais próximo

Racionamento mais próximo

Reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste já atingiram 17% da capacidade. Governo anunciou "medidas drásticas" caso volume chegue a 10%. Planalto reúne seis ministros para discutir crise hídrica no país e consequente paralisação de hidrelétricas

SIMONE KAFRUNI BÁRBARA NASCIMENTO
postado em 24/01/2015 00:00
O governo já começa a preparar o discurso para um possível racionamento de energia. Na quinta-feira, o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, afirmou que o país pode enfrentar ;problemas graves; de abastecimento de energia elétrica se o nível dos reservatórios das usinas atingir um patamar de 10%. No Sudeste e no Centro-Oeste, as reservas já estão em apenas 17% da capacidade total, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Ontem, o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, reuniu os titulares de seis ministérios ; da Integração Nacional, Gilberto Occhi; de Minas e Energia, Eduardo Braga; do Meio Ambiente, Izabella Teixeira; da Agricultura, Kátia Abreu; do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias; e do Desenvolvimento Social, Tereza Campello ; para tratar da questão hídrica. O objetivo da reunião foi colocar recursos disponíveis em parcerias e projetos que resolvam a crise hídrica brasileira.

Como 75% da energia do país são provenientes de fontes hidrelétricas, a situação crítica de abastecimento de água ameaça também a geração de energia, sobretudo porque a pior seca dos últimos 80 anos adentrou o período úmido. Em relatório divulgado ontem, o ONS reduziu a previsão do volume de chuvas em janeiro para todas as regiões do país. Agora a média histórica para o mês, que já estava baixa, em 44%, caiu para 43% nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. No ano passado, choveu 54% da média histórica em janeiro, mês considera o mais volumoso do período úmido.

Na avaliação do diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico ; Ilumina, Roberto Pereira d;Araujo, o problema do país não é apenas climático. ;Nós temos publicado, há mais de dois anos, que a tendência é de ficarmos com reservas menores em relação ao consumo. Era evidente, desde 2009, que os reservatórios do país estavam numa trajetória descendente;, ressaltou.

Imobilismo
Para o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires, quanto maior o problema, mais difícil sair dele. ;O governo foi escondendo e continua, mesmo depois das eleições, com atitude muito imobilista. A única coisa que fez foi o tarifaço, que, na minha opinião, não vai ser suficiente;, disse. Segundo ele, dada a gravidade da crise, o governo deveria fazer como Fernando Henrique Cardoso, em 2001 ; ano do racionamento ;, e criar um comitê gestor de crise para buscar uma solução.

O especialista destacou que o governo precisa reconhecer a necessidade de racionalização. ;Estamos caminhando para o abismo. O ministro ou a presidente deveria ir à televisão falar para a população economizar energia. Quanto mais demora, mais o problema se aprofunda. Mais seco fica o reservatório, mais demora a encher, mais dura será a crise. O governo está sendo desleal com a sociedade;, disse.

Para Guilherme Schmidt, especialista em energia do L.O. Baptista, a falta de planejamento do governo transformou o problema do sistema energético brasileiro em uma bola de neve. ;A situação atual é resultado de uma sucessão de fatores, de vários gargalos. Falta comunicação, diálogo entre governo e o setor privado. Falta investimento, porque o governo não está cumprindo o que previu para o setor elétrico e isso afugenta investidores. Temos um problema sério de transmissão e obras atrasadas. Isso faz com que o ONS tenha uma expectativa de geração que não é efetivamente entregue;, afirmou.


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