O Brasil e o pacote europeu

O Brasil e o pacote europeu

postado em 24/01/2015 00:00


O lamentável desempenho das contas externas brasileiras em 2014, quando o país importou mercadorias e serviços mais do que exportou e recebeu menos investimentos diretos do que precisa, resultando num preocupante deficit de US$ 90,95 bilhões, é mais um motivo para que o segundo governo Dilma Rousseff acompanhe com atenção os efeitos do pacote divulgado pelo Banco Central Europeu (BCE), na semana passada.

Anunciado na quinta-feira, o plano da autoridade monetária da União Europeia consiste, basicamente, na injeção de nada menos do que 1,14 trilhão de euros na economia regional, por meio da compra de títulos em poder dos 19 países-membros.

O BCE espera irrigar a atividade econômica da Europa com até 60 bilhões de euros por mês, até alcançar aquele total em setembro de 2016. Conhecida no jargão dos economistas como quantitative easing (QE), essa operação é parecida e tem os mesmos propósitos da que fez o governo dos Estados Unidos. Ela contribui para aumentar a liquidez no mercado financeiro desses países e para baixar as cotações da moeda, tornando os produtos da região mais competitivos e, teoricamente, estimulando o consumo das pessoas.

Há, ainda, um efeito desejado que é, curiosamente, provocar alguma inflação. Ocorre que a estagnação europeia, que se prolonga desde a crise financeira mundial de setembro de 2008, acabou provocando um princípio de deflação (a derrubada geral dos preços por falta de demanda).

Trata-se de um fenômeno tão ou mais danoso do que a nossa velha conhecida inflação, pois funciona como um perigoso desestímulo ao consumo e, por consequência, à produção e ao emprego. O consumidor adia sua decisão de compra, pois espera encontrar preços mais baixos no mês seguinte.

Os efeitos sobre a economia brasileira podem ser positivos e negativos. Do lado positivo, estão os investimentos estrangeiros no país, especulativos ou não, item que passou a ser de grande necessidade para compensar nossos desequilíbrios em conta-corrente e para bancar inadiáveis projetos de infraestrutura econômica.

É que o pacote europeu surge exatamente quando os EUA decidem encerrar seu quantitative easing e se preparam para sugar o grosso das poupanças mundiais, com a sua economia em recuperação e com a retomada da normalidade da política monetária pelo Federal Reserve (o banco central norte-americano). Com seus juros entre os mais altos do mundo, o Brasil pode se tornar atraente aos capitais de curto prazo que circularão a partir da Europa, irrigados pelo pacote do BCE.

Há ainda o lado positivo da eventual reanimação do consumo na Europa, continente que foi nosso segundo maior importador e hoje fica longe da China e dos Estados Unidos. Do lado negativo, está o encarecimento dos produtos importados pela Europa ; entre eles, os produzidos no Brasil.

É positiva para todos a reanimação da economia da Europa. Mas, para aproveitar as oportunidades que surgirão, teremos de estar com nossa credibilidade em dia (para receber os investidores) e com o custo Brasil reduzido (para conquistar os consumidores). Conseguiremos?



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