Estabilidade real

Estabilidade real

Salman bin Abdulaziz Al-Saud assume o trono com a promessa de manter-se fiel à política do meio-irmão, o falecido monarca reformista Abdullah. Analistas preveem a manutenção da aliança com o Ocidente

LUCAS FADUL
postado em 24/01/2015 00:00
 (foto: AFP)
(foto: AFP)






Embora seja considerado uma personalidade consolidada dentro da família real, o novo rei da Arábia Saudita assume o trono com a incumbência de levar adiante o legado reformador do irmão e antecessor, Abdullah, sem abdicar do combate ao Estado Islâmico (EI). O grupo terrorista jurou ultrapassar as fronteiras da Síria e do Iraque para capturar o reino saudita, berço da religião muçulmana. Em discurso à nação, ontem pela manhã, Salman bin Abdulaziz Al-Saud, 79 anos, pediu união aos fiéis segregados pela guerra e prometeu manter a atual orientação política de Riad. ;Deus quis que eu tivesse essa grande responsabilidade. Rezo para que ele me apoie;, declarou o novo monarca. Na capital do país ; o maior produtor de petróleo do mundo ;, milhares de pessoas compareceram ao funeral de Abdullah para dar o último adeus ao soberano falecido.

Durante pronunciamento transmitido ao vivo pela televisão saudita, Salman assegurou a manutenção do ;curso firme do país desde a sua fundação;. ;Seguiremos, com a força de Deus, no caminho reto que este Estado tem seguido desde a sua criação pelo rei Abdulaziz bin Saud e por seus filhos;, exaltou. Na esteira das futuras transferências de poder no reino, o soberano nomeou o sobrinho Mohamed Ben Nayef, 55 anos, como segundo príncipe-herdeiro ; o sucessor direto dele é Muqrin, de 69, também meio-irmão do falecido rei Abdullah. Outro ponto significativo do discurso de Salman foi dirigido às nações árabes, das quais ele cobrou união e o fim dos conflitos.

O enterro de Abdullah ficou marcado pela rapidez e pela simplicidade. A cerimônia, que seguiu à risca as tradições islâmicas, contou com a presença de milhares de sauditas e de alguns governantes estrangeiros. O corpo do rei foi coberto com um pano amarelo e transportado dentro de um caixão para a Mesquita Imã Turki bin Abdullah, em Riad. ;Allahu Akbar; (;Deus é maior;, em árabe), iniciou a célebre invocação o clérigo responsável pela despedida, depois de os restos mortais do monarca serem colocados no chão. Entre os líderes presentes, destacavam-se o príncipe Charles; o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan; e o primeiro-ministro e o presidente do Egito, Ibrahim Mehleb e Abdel Fatah Al-Sissi. O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, deve viajar a Riad nos próximos dias.

Novo reinado
Em entrevista por e-mail ao Correio, Lina Khatib, diretora do Instituto Carnegie Center para o Oriente Médio, afirmou que Salman é mais conservador que o antecessor Abdullah. ;Entretanto, ele sofre de demência, o que significa que provavelmente não seja tão influente quanto o falecido meio-irmão. A Arábia Saudita pode, portanto, esperar a continuidade dos mesmos padrões de política em um futuro próximo;, analisa. ;Abdullah levou o reino saudita a um processo de abertura relativa, mas ele não conseguiu ultrapassar o conselho dos ultraconservadores, o que significa que as reformas seguirão em um escopo limitado;, conclui a especialista.

Virgílio Arraes, professor do Departamento de História e do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), disse ao Correio que, por causa da linha de sucessão real, a orientação política de Riad em relação aos parceiros ocidentais deve permanecer inalterada. Isso valeria para os Estados Unidos, um dos maiores compradores do petróleo saudita. ;Como a monarquia saudita é eletiva dentro da família real, a princípio, nada muda. A sucessão já tinha sido preparada com certa antecedência, essa é a vantagem desse sistema de governo no país árabe;, disse. Na avaliação de Arraes, como o poder é hereditário dentro de um grupo, não existe o risco de haver um sucessor sem preparo administrativo ou que deseje realizar reformas profundas.

Colaboraram Rodrigo Craveiro e Liana Sabo



Personagem da notícia

Pragmático
e habilidoso




O novo rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al-Saud, 79 anos, é descrito como ;uma figura robusta da família real; e ;um reformador pragmático e cauteloso;. Nomeado príncipe-herdeiro em junho 2012, após a morte do príncipe Nayef bin Abdulaziz, ele exercia as funções de primeiro-ministro e de ministro da Defesa, antes de ascender ao trono saudita. Salman é um dos irmãos mais jovens do rei Abdullah, apesar da idade avançada. Analistas creem que o novo monarca dará continuidade ao legado reformista deixado pelo antecessor.

Embora existam boatos sobre a situação da saúde de Salman, diplomatas consultados pela agência de notícias Reuters relataram que, durante o ano passado, ele foi visto completamente envolvido em longas conversas com líderes estrangeiros. O controle estatal exercido por Riad sobre a imprensa contribui, contudo, para que muito pouco seja conhecido sobre as reais condições do monarca. Informações sigilosas divulgadas pelo site Wikileaks revelaram que Salman teria indicado a representantes do governo dos Estados Unidos ser contrário à instauração de uma democracia no país.

Hábil e pragmático gestor do delicado equilíbrio de interesses religiosos, tribais, reais e ocidentais que influenciam a agenda política do reino saudita, Salman dificilmente vai alterar a abordagem do país no setor externo ou no comércio de energia. Uma das principais tarefas do monarca octogenário será administrar desafios internos de longo prazo, resultantes da queda do valor do barril de petróleo, e conter o avanço do grupo terrorista Estado Islâmico (EI) nos vizinhos Iraque e Síria.

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