Curiosidade é o motor da aprendizagem

Curiosidade é o motor da aprendizagem

Estudo mostra que se sentir instigado por algum tema facilita a retenção de novas informações, sejam elas relacionadas ou não àquele assunto

» Vilhena Soares
postado em 24/01/2015 00:00


A curiosidade pode ser a chave do conhecimento, indica um estudo realizado recentemente por cientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Ao analisar como o cérebro humano funciona ao ser aguçado por um tema desconhecido, os pesquisadores observaram que o aprendizado acabava favorecido. Nos testes, os voluntários que se sentiam instigados por algo novo demonstravam uma vontade maior de obter mais dados sobre o assunto e tinham mais facilidade tanto para compreendê-lo quanto para reter as informações recém-adquiridas. Os autores acreditam que o trabalho pode auxiliar no desenvolvimento de técnicas mais sofisticadas de ensino.

Na pesquisa, publicada na revista especializada Neuron, os autores realizavam uma série de perguntas sobre temas que poderiam despertar o interesse dos voluntários, que tinham seus cérebros monitorados por ressonância magnética funcional. As questões não visavam descobrir se os indivíduos sabiam as respostas, mas simplesmente instigar a curiosidade deles. Ao analisar a atividade cerebral dos participantes, notaram-se diferenças significativas na atividade de neurônios quando o tema abordado despertava o interesse da pessoa. Além disso, testes de memória mostraram que era mais fácil para os sujeitos recordarem informações que diziam respeito a esses temas.

Os responsáveis pela pesquisa explicam que, quando as pessoas estavam muito curiosas para saberem a resposta de uma pergunta, elas aprendiam mais rapidamente a nova informação. Porém, o que mais surpreendeu os cientistas foi notar que ter a curiosidade despertada ajudou a melhorar também o desempenho em atividades que não eram ligadas à primeira tarefa. Isso foi constatado porque os voluntários que se sentiram curiosos por algum dos temas acabaram se saindo melhor em testes de memória de reconhecimento facial.

;A curiosidade pode colocar o cérebro em um estado que lhe permite aprender e reter qualquer tipo de informação. Ele passa a funcionar como redemoinho que suga o que você está sendo motivado a aprender e também tudo ao redor;, afirmou, em um comunicado à imprensa, Matthias Gruber, coautor do estudo e professor da Universidade da Califórnia.

Prazer

A equipe norte-americana descobriu que a curiosidade motiva a aprendizagem por conta do aumento de atividade na área de recompensa do cérebro, que gera sensação de prazer nas pessoas e depende da dopamina ; substância química que transmite mensagens entre os neurônios ; para funcionar corretamente. ;A curiosidade recruta o sistema de recompensa, e as interações entre esse sistema e o hipocampo parecem colocar o cérebro em um estado que deixa a pessoa mais propensa a aprender e a reter informações, mesmo que essa informação não seja de particular interesse ou importância;, detalhou Charan Ranganath, também autor do trabalho.

Os cientistas acreditam que essa descoberta pode levar, futuramente, à criação de intervenções que usem a dopamina para aperfeiçoar a memória e o aprendizado. ;Nossas descobertas possuem potencial para implicações de longo alcance para o público porque elas revelam insights sobre como uma forma de motivação intrínseca, a curiosidade, afeta a memória. Esses resultados sugerem maneiras de melhorar a aprendizagem em sala de aula e outros locais;, disse Gruber.

Cláudio Carneiro, coordenador de Neurologia do Hospital Santa Helena, em Brasília, acredita que o estudo reforça teorias já conhecidas, mas que precisavam de provas científicas. ;Já sabíamos que a curiosidade facilitava o aprendizado, mas é interessante saber mais sobre isso, localizar a estrutura responsável por esse estímulo e se alguma substância específica pode ajudar nesse mecanismo;, destacou o especialista, que não participou do estudo.

O brasileiro avalia que a função da dopamina é importante, mas acredita que outros fatores podem estar ligados a esses mecanismos de retenção de memória. ;Ela também está relacionada a problemas de Parkinson, e já temos medicamentos que possuem a mesma função dela, mas que ainda não conseguiram sanar todos os problema gerados por essa doença. Por conta disso, acredito que outros fatores podem estar ligados a esse mecanismo, por isso é necessário se aprofundar ao tema;, afirma.

O neurologista acrescenta que o trabalho americano é bem-vindo à área médica, mas precisa de mais desenvolvimento para resultar em estratégias mais avançadas, principalmente relacionadas a medicamentos. ;A ressonância magnética funcional, utilizada nesse estudo, tem auxiliado a área científica pois mostra o exato funcionamento do cérebro, e isso pode fornecer informações valiosas para a saúde. Quando falamos em memória, sempre pensamos em Alzheimer; sempre temos a esperança de que trabalhos que desvendem essa função cerebral ajudem em tratamentos para esse tipo de problema;, completou o especialista.

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