Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Conceição Freitas >> conceicaofreitas.df@dabr.com.br
postado em 24/01/2015 00:00
Tanto querer
Queria ter conhecido Brasília antes mesmo de ela existir. Queria ter sido tomada pela maresia do chapadão inteiramente deitado de frente para o céu, majestoso como o mar.

Queria ter dado de cara com um lobo-guará, eles de zoião em mim e eu morrendo de medo dele.

Queria ter corrido atrás de uma ema, lá onde hoje é o Recanto, onde elas saltitavam com suas pernas de bailarina.

Queria ter visto a geada no cerrado, camada finíssima de gelo sobre o chão sangrento.

Queria ter visto o universo todo afunilado num só céu, experiência de astronauta que só pôde ver quem estava aqui antes da chegada da luz elétrica.

Queria ser uma goiana de saia de chita, pé no chão e lenço no cabelo, arregalando os olhos para o céu quando o ronco do primeiro avião sobrevoou as terras onde os homens de lá longe iam construir uma cidade cá bem perto.

Queria ter morado na Cidade Livre. Queria ter visto os novos candangos pulando do pau de arara e deixando uma nuvem de poeira em volta do caminhão.

Queria ter sido a filha pequena de um candango para mergulhar na lama vermelha, brincar dentro das manilhas nos canteiros de obra, amarrar cordão no rabo do vaga-lume e tomar banho de balde.

Queria ter dormido numa cidade e acordado na mesma cidade só que outra, maior, mais construída.

Queria ter sido arquiteta para sentir o inimaginável sentimento de estar construindo uma cidade, um lugar para o acolhimento de muitos, multidão.

Queria mesmo ter sido pedreira, servente, marceneira, eletricista, mestre de obras da nova capital para me sentir tão importante como nunca dantes e nunca depois. Pôr uma pá de cimento no chão do novo Brasil, que eles acreditavam, com força, que estavam construindo.

Queria ser um passarinho para imitar os primeiros acordes de Tom Jobim quando ele e Vinícius compuseram a Sinfonia da Alvorada hospedados no Catetinho. Eles e algumas garrafas de uísque.

Queria ter olhado para o meu vizinho e ter sido cúmplice dele e ele, meu cúmplice. Ó, estamos todos juntos nessa loucura santa.

Queria mais. Queria ter cruzado com Renato Russo na 303 Sul, queria ter visto a seleção tricampeã do mundo desfilando pelo Eixo Monumental.

Queria, ah, como queria, ter ido ver Yuri Gágarin descer do avião no aeroporto de Brasília, em julho de 1961, e Che Guevara, dias depois.

Queria, apesar de todo o lamento profundo, ter estado no meio da multidão que levou o corpo de Juscelino ao Campo da Esperança.

Queria tudo isso e ainda mais um pouco.
;.
Crônica originalmente publicada em 23 de outubro de 2008.

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