Profeta da era virtual

Profeta da era virtual

Livro construído a partir de fragmentos de textos póstumos revela a riqueza do olhar do cineasta russo Serguei Eisenstein sobre a história do cinema, inclusive pelo fato de antever o formato 3D

João Lanari Bo Especial para o Correio
postado em 24/01/2015 00:00




Uma personalidade como a de Serguei Eisenstein escapa a classificações precipitadas: conhecido pelas obras-primas que produziu no cinema, que o ligam ao período revolucionário na Rússia dos anos 1920, Eisenstein foi, no entanto, muito mais do que um homem da cultura engajado nas causas político-sociais. Se olharmos para o passado, seria tido como um artista renascentista, representante do tempo em que a ciência e a arte andavam juntas; para seus contemporâneos, foi visto como alguém obcecado com a convergência entre teoria e prática; finalmente, nos dias de hoje, a matriz Eisenstein se nos aparece como uma fonte plural em estado de permanente inovação, dotado de uma espécie de subjetividade ;digital;, que vê a história como o ;espaço de uma dispersão; e recusa princípios de ;causalidade, de analogia e de homogeneidade;.

Não é uma apreciação exagerada: a noção de história como ;dispersão; vem de Michel Foucault, e esta é a leitura atual que fazem do diretor soviético numerosos pesquisadores e exegetas, ofegantes com a riqueza que emana dos seus escritos e projetos, quase sempre inacabados, mas incessantemente certeiros e proféticos. Contribuiu para essa percepção a descoberta de oito ou nove pastas deixadas pela viúva de Eisenstein no ;Arquivo Central de Literatura e Arte da URSS;, publicadas no Brasil pela Azougue Editorial, sob o título Notas para uma história geral do cinema. É conhecido o esmero com que os comunistas preservaram arquivos pessoais, de documentos a bilhetes íntimos.

No caso do Eisenstein, que acumulou casos de rebeldia contumazes durante toda sua vida, o esmero rendeu frutos: as oito ou nove pastas, cuidadosamente guardadas após sua morte precoce em 1948, com 50 anos, sobreviveram ao fim da era Stalin ; como dizem as testemunhas, um período de ;alta intensidade persecutória;. E mais: resistiram à progressiva decadência do regime comunista, ao fim (e derrota soviética) da guerra fria, e à queda do muro de Berlim, em 1989. O que ficou, e chega até nós em tradução direta do russo, é um extraordinário compêndio das preocupações do diretor, que vão da genealogia cultural da imagem às pulsões profundas que motivam o público, dos estudos antropológicos à montagem cromática, e ; pasmem ; do ;cinema de relevo; (o nosso 3D) à televisão.

Mais conhecidos, os textos teóricos publicados em vida, muitos deles traduzidos no Brasil, mostram seu engajamento naquela que foi talvez a maior aventura espiritual do século 20, a revolução bolchevique. A transição abrupta do estado semifeudal czarista para a utopia socialista seduziu as inteligências inquietas e produziu um dos mais férteis momentos de expressão artística que se tem notícia. Serguei Eisenstein mergulhou de cabeça, de início no teatro e logo no cinema, estreando aos 26 anos com o fabuloso A greve. A simbiose entre a prática da realização cinematográfica e o exercício teórico revelou-se sobretudo pelo uso da ;montagem de atrações;, pensada inicialmente para o teatro e adaptada à perfeição na montagem cinematográfica: a ideia era, como escreveu o diretor, ;formar visões justas despertando contradições na mente do espectador, e forjar conceitos intelectuais acurados a partir do choque dinâmico de paixões opostas, utilizando para isso cortes de forte impacto psicológico;.

Um projeto abalizadamente dialético, de natureza construtivista, ou seja, inspirado nas novas perspectivas abertas pelas técnicas e materiais modernos e visando a transformação da sociedade. Encouraçado Potemkin, feito um ano depois em 1925, é a consagração: o choque das ;atrações; capta a atenção dos espectadores e exerce pressão emocional em direção a uma finalidade pré-concebida pelo diretor, a consciência da revolução social. A repercussão veio em escala global.



Clima paranoico
Logo em seguida, veio também o choque de realidade. A gradual ocupação dos espaços dentro do Partido Comunista por Josef Stalin, no fim da década de 1920, terminou asfixiando o entusiasmo da classe artística. Eisenstein partiu para uma longa viagem que incluiu Europa, EUA e por fim México, onde rodaria um belíssimo projeto, que infelizmente não pôde finalizar. Combinada com o retorno difícil, em 1933, dado o paranoico clima político na União Soviética, a viagem acabou sendo um ponto de virada, conforme os biógrafos, no seu engajamento na revolução: a convicção na perspectiva teleológica da história ; o presente é contraditório, mas o futuro aponta para a utopia socialista ; ficou definitivamente abalada.

O devir histórico passou a ser cada vez mais um ;espaço de dispersões;, com diferentes fluxos convergindo e divergindo, não necessariamente progredindo em direção a um objetivo comum. A evolução das formas cinematográficas, por exemplo, obedece a vários vetores, percepção que permitiu a Eisenstein escrever um brilhante ensaio sobre os desenhos de Walt Disney ao mesmo tempo que imaginava um roteiro sobre O capital, de Karl Marx, utilizando um monólogo interior inspirado em Ulisses, de James Joyce.

O magnífico Ivã, o terrível, sua última produção, em duas partes, corporificou essa nova visão: Stalin não gostou da segunda parte ; dizem que ;vestiu a carapuça;, projetando-se no delírio persecutório do antigo czar ; e mandou interditar o filme. As notas ora publicadas foram escritas nessa época, tempos duros, certamente, mas que não impediram, mais uma vez, o voo livre da mente prodigiosa de Eisenstein.

João Lanari Bo é professor de cinema da UnB



De Serguei
Eiseinstein/Ed. Azougue. Preço: 400 páginas/R$ 86



Trechos
O lugar histórico do cinema na história das artes. O surgimento sobre as ruínas do ;segundo barroco;.

Outras artes se decompõem até a nulidade. Os ;ismos;. A cada um seu signo distintivo. Desagregação da sociedade burguesa. Da nulidade parte o cinema. Uma invenção técnica. Um regime social (URSS) que busca uma arte de massas. A condição social e a técnica coincidem. Como uma nova totalidade social e estética.

(;)

Uma síntese das artes. Uma síntese real na técnica do cinema e na nossa estética. Em lugar dos "sonhos" de síntese. Retorno da ideia de síntese dos gregos (início morfológico no ditirambo). As liturgias (arquitetura, órgão, vitral, plain chant, fusão do público com a aç

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação