O palhaço anárquico da telinha

O palhaço anárquico da telinha

Mariana Peixoto
postado em 24/01/2015 00:00



Abelardo Barbosa tinha não mais de 4 anos quando, a bordo do pequeno caminhão do pai, apertava a buzina dourada do veículo anunciando a passagem do vendedor de armarinho pelas ruas de Caruaru, em Pernambuco. Vinte e seis anos depois de sua morte, o mais popular apresentador de televisão do Brasil entre os anos 1970 e 1980 tem sua história retratada em livro.

Chacrinha ; a biografia (Casa da Palavra), de Denilson Monteiro, não traz revelações bombásticas sobre o Velho Guerreiro (1917-1988). Ainda que toque em pontos nevrálgicos de sua trajetória ; como as acusações de que recebia jabá e um suposto relacionamento amoroso com a cantora mineira Clara Nunes ;, o relato busca compilar, com escrita fluida e simpática, uma vida que foi muito além do que exibiam seus lendários programas no rádio e na TV. Monteiro, também biógrafo de Carlos Imperial e de Ronaldo Bôscoli, havia se deparado com a figura carnavalesca que deixou marcas indiscutíveis na comunicação popular em trabalhos anteriores: fez também pesquisas para as biografias de Tim Maia, Erasmo Carlos e Bussunda.

O autor partiu de pesquisa realizada por Eduardo Nassife sobre a trajetória de Chacrinha. Para aqueles que o conhecem por meio dos programas televisivos, esse livro é um prato cheio. Utilizando o formato de uma biografia tradicional, Monteiro inicia a história no interior de Pernambuco ; Chacrinha é o primogênito de uma família de Surubim, cidade do agreste. Diante da falta de oportunidades, a família migra para outras pequenas cidades. Ainda bem jovem, Abelardo chega ao ;Sul maravilha; sozinho, com quase nenhum dinheiro, um curso de medicina interrompido e gana para ganhar a vida.

É no Rio de Janeiro que o pernambucano encontra a sua vocação. A partir da própria história de Chacrinha, o autor consegue fazer um retrato interessante da era do rádio, da influência dos nordestinos que foram tentar a sorte na então capital federal e do nascimento da televisão brasileira. Com a criação do Cassino (programa de rádio em que o apresentador pernambucano trabalhava usando apenas cuecas), o mito só cresceu.

Os telespectadores que conhecem o Chacrinha do programa de TV, com seu séquito de chacretes, um vaivém de músicos populares (aquele palco foi a principal vitrine tanto dos bregas dos anos 1970 quanto do rock nacional da década posterior) vão encontrar um personagem humanizado. Católico rígido e obcecado pela audiência, o apresentador, a despeito de seus anos e anos de experiência, invariavelmente era acometido de diarreia a cada edição de seu programa, antes de entrar no ar.



DUAS PERGUNTAS PARA /Denilson Monteiro

O que mais lhe chamou a atenção em Chacrinha?
Fala-se muito de um homem com fama de louco no palco. Mas Chacrinha era uma pessoa muito preocupada. A audiência era uma obsessão na vida dele, tanto que termino o livro com essa questão, sempre recorrente em sua carreira. Além disso, pude constatar algo que todo mundo falava: ele não só descobriu muita gente como soube o que oferecer ao público. Ele tinha domínio total de seu posto.

Quem são os herdeiros daquele tipo de TV que Chacrinha fez?
Ele influenciou muita gente. Por exemplo, andar pelo palco, mostrar coxia (do teatro) é coisa do Chacrinha. O Faustão, de vez em quando, quebra o protocolo. Mas hoje vivemos a ditadura do politicamente correto. Mesmo que se tenha liberdade para dizer o que se pensa, em contraponto ao período da ditadura militar, há um patrulhamento muito grande. Então, não sei se o próprio Chacrinha teria espaço hoje.



Chacrinha, a biografia
De Denilson Monteiro. Casa da Palavra, 368 páginas, R$ 49

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