Márcio Cotrim

Márcio Cotrim

marciocotrim@facbrasil.org.br www.marciocotrim.com.br
postado em 24/01/2015 00:00
 (foto: Pacífico/CB/D. A Press)
(foto: Pacífico/CB/D. A Press)
O valor de uma cantada

Publicidade é assunto que mexe com a cabeça de todo mundo, ninguém fica indiferente. Tenho passado boa parte de minha vida profissional envolvido com ela. Pois, anos atrás, numa viagem a Curitiba, participei de uma palestra sobre o tema, feita por um sujeito com jeitão de Jô Soares. Logo de cara, ele deu o mote: publicidade é cantada.

Pensando bem, ele está coberto de razão. Imagine o indivíduo posto em sossego em seu canto, mastigando salgadinho enquanto passa um filme cabeludo na TV. No melhor da festa, entra um anúncio de absorvente feminino ou de vasos sanitários a preço de ocasião, um breve contra a luxúria.

Por essas e outras, quem faz publicidade é, em princípio, um chato. Enche o saco da humanidade com seu problema de venda ; o que é que eu tenho com isso? ; interrompe o filme na sequência mais quente para apresentar as vantagens de seu produto, gasta páginas de jornais com ele, polui ruas e esquinas com painéis de seu exclusivo interesse

Está, é verdade, exercendo seu legitimo ofício: cantar o público-alvo, cutucá-lo, motivá-lo a escutar sua arenga para convencê-lo a lhe comprar a tralha que oferece.

É como conquistar uma mulher. Ela vem tranquilamente caminhando pela rua. De repente aparece o engraçadinho e lhe solta uma piada ao pé do ouvido. É o começo da cantada - nem sempre fácil de romper diante de método tão reles.

Como os anunciantes, um atrás do outro, num bombardeio sem fim que azuucrina a cabeça da pobre vítima. Nessa braba luta, ganha o mais convincente. Em outras palavras, quem dá a melhor cantada.

Mas, dirá você perspicaz, a mulher também pode estar querendo, estar louquinha para comprar um colchão novo e macio, não
é? Só lhe falta a cantada final, o empurrão para conduzi-la ao balcão da loja.

Por isso mesmo, o publicitário não passa de um conquistador. Na selva em que atua, a competição é tão violenta que ele tem que se virar, inventar os caminhos mais doidos para vender sua suculenta garoupa.




O palestrante deu ideias interessantes, credenciado pela vitoriosa experiência de quem já colocou sua agência entre as maiores do país ; alguém que tem cantado muito bem uma clientela feminina real e potencial.

Segundo ele, os profissionais do ramo geralmente não percebem o óbvio, desperdiçam dicas para mexer com a cabeça do público. Ensinou com muita graça, colocar um baita cartaz no aeroporto de Salvador anunciando remédio para piriri ; quem desembarca na Bahia já sabe que vai engolir muito dendê e se esvairá em cólicas brutais, a menos que tome seu Imosec para diarreias e angústias afins.

Ou, quem sabe, dirigir-se a uma agência de viagens e reservar seu lugar numa perdularíssima viagem à Lapônia ou à esplêndida Capadócia e seus deslumbrantes balões.

Sugestão muito procedente, lembrou ele, é veicular, nas seções de indicadores financeiros dos jornais, anúncios que vendam medidores de pressão, cruzeiros marítimos e até lingerie, por que não? Se o leitor está exultante com o lucro obtido no mercado financeiro, é aproveitar a bonança e presentear a mulher amada com um delicado conjunto de calcinha e sutiã, que tal? Afinal, no doce embalo das boas notícias, esbanjar é preciso . . .

Se, ao contrário, a Bolsa está desabando e sinaliza ruína iminente, é hora de tomar a pressão arterial. Eis a receita: anunciar aqueles medidores de dedo, japoneses, ou até os mais antiquados, de amarrar no braço o torniquete de velcro. É que más noticias recomendam providências imediatas.

Procedimento semelhante deve ser adotado, ainda no rastro das alegrias, na reserva de espaço para a seção de veículos nas folhas. Na escolha de um carro novo, o futuro comprador se motiva ainda mais se, no meio daquelas letrinhas miúdas dos classificados, encontrar um anúncio inteligente vendendo coisas e loisas de deixar os cabelos em pé.

Só lamentei que o palestrante não tenha dado bola para uma ideia para seu cliente Valis;re: ;Valis;re rima com mulher; . .


;Já é hora de irmos. Eu, para a morte, vocês para a vida (Sócrates, momentos antes de tomar veneno;

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