2015: o ano em que dizemos %u201Cnão mais fome%u201D

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RAÚL BENÍTEZ, Representante Regional da FAO para América Latina e o Caribe
postado em 17/03/2015 00:00



Este ano marca o ponto de virada na luta contra a fome mundial. Dois mil e quinze é o prazo limite que os governos do mundo assumiram para alcançar as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e da Cúpula Mundial da Alimentação (CMA) que visam, entre outras coisas, reduzir à metade o percentual e o número total de pessoas com fome, respectivamente.

A partir de 2016, o mundo assumirá os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e durante os próximos meses a comunidade internacional analisará os casos de sucesso e as políticas que deram os melhores resultados para que os novos desafios possam ser enfrentados com forças renovadas e com a experiência acumulada pelos países e regiões que demonstraram maior êxito.

De acordo com a FAO, a região da América Latina e Caribe é a que obteve os maiores avanços, tornando-se atriz de destaque e exemplo para o resto do mundo. É a única região em desenvolvimento que alcançou a meta da fome dos ODM, reduzindo o percentual de subalimentação de 15,3%, em 1990-1992, a 6,1% em 2012-2014. Além disso, é a única no mundo que ainda poderia alcançar a meta da Cúpula Mundial de Alimentação, se somente 2,7 milhões de pessoas superarem a fome em 2015, somando-se as mais de 30 milhões de pessoas que a venceram nas últimas duas décadas.

O fator que diferencia a região é o enfoque político na luta contra a fome ; um processo de décadas nas quais a segurança alimentar se instalou como uma prioridade para os governos da região. O ápice desse processo ocorreu em janeiro deste ano. Na Cúpula da Costa Rica, os presidentes e os chefes da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) aprovaram o Plano de Segurança Alimentar, Nutricional e de Erradicação da Fome, que busca acabar com essa chaga em todos os países da região, no mais tardar, em 2025. Com isso, a segurança alimentar conseguiu se posicionar no nível mais alto da agenda política regional.

A FAO tem acompanhado esse plano desde o início. Com a Aladi e a Cepal, desenhou o esboço e continuará apoiando os países para aperfeiçoar a implementação, monitorar os avanços e buscar maior quantidade de sinergias com o próprio programa de trabalho na região.

Quatro pilares sustentam o plano. O primeiro deles visa criar estratégias coordenadas de segurança alimentar por meio de planos e políticas públicas nacionais e regionais. Esse pilar fortalecerá marcos jurídicos e institucionais de segurança alimentar, facilitará o comércio e evitará as perdas e desperdícios de alimentos, e fomentará programas de abastecimento. O segundo pilar busca garantir o acesso sustentável a alimentos inofensivos e nutritivos para todas as pessoas, mediante programas de transferências condicionadas e o fortalecimento do mercado de trabalho e da agricultura familiar. O terceiro pilar visa o bem-estar nutricional para todos os grupos vulneráveis, por meio de iniciativas como a de alimentação escolar, promoção de hábitos saudáveis e a luta contra as duas faces da má nutrição: a obesidade e a subnutrição. O quarto pilar pretende garantir a estabilidade da produção de alimentos e os cuidados necessários frente a desastres de origem humana ou natural.

A América Latina e o Caribe souberam construir o próprio caminho em direção à meta de fome zero. Já não importa, não copia experiências nem segue diretrizes ou resoluções de política econômica e social que vêm de outras realidades. Pelo contrário, a região se transformou em fonte inesgotável de políticas inovadoras cujo sucesso é referência mundial.

Dez anos atrás, a região foi pioneira ao propor não apenas a diminuição como a erradicação total da fome, compromisso que resultou na Iniciativa América Latina e Caribe sem Fome 2025, aprovada por todos os países. Este ano, a Celac se somou a esse esforço e os governos disseram ;não mais fome; em uma só voz, dando sinal de esperança aos 37 milhões de mulheres, homens e crianças que, todos os dias, ainda sofrem pela falta de acesso aos alimentos na região.

O caminho pela frente está repleto de grandes desafios. Entretanto, há muito espaço para o otimismo graças aos enormes passos que a região deu e ao compromisso com a erradicação da fome que resultou no Plano de Segurança Alimentar, Nutricional e Erradicação da Fome da Celac. Estou certo de que nossa região seguirá demonstrando que é possível um mundo sem fome.

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