Embaixador prevê desafios imensos

Embaixador prevê desafios imensos

Silvio Queiroz
postado em 17/03/2015 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)



O novo embaixador de Israel, Reda Mansour, representa em pessoa um aspecto menos conhecido da sociedade que vai às urnas hoje para enfrentar desafios que vão da tensão com o Irã e do conflito inacabado com os palestinos até a convivência interna entre comunidades étnicas e religiosas. Mansour pertence à minoria druza, que é uma das mais integradas ao país, mas faz parte do significativo contingente árabe-israelense ; o qual poderá sair das eleições com a terceira maior bancada na Knesset (parlamento). O diplomata falou ao Correio sobre as questões imediatas e de longo prazo que dominaram a campanha, assim como das perspectivas políticas em um cenário de mutação social e fragmentação política.

Qual é o retrato do
país que vai às urnas hoje?
É um país que tem pela frente desafios muito grandes, que precisa lutar diariamente pela sobrevivência ; não são muitos países no mundo que precisem ter uma atenção tão grande com a defesa. Ao mesmo tempo, Israel conseguiu atingir um nível de vida muito alto, com PIB per capita acima de US$ 30 mil, é um dos 20 países mais avançados, com sistemas públicos muito sólidos de saúde e educação. Estamos em uma região muito perigosa, nossas fronteiras com Síria e Líbano vivem muita instabilidade, também com o Egito, no Sinai.

Há perspectiva de avançar
na questão palestina?
Até cinco anos atrás, antes da chamada Primavera Árabe e dessa grande instabilidade no Oriente Médio, essa era a questão mais central e mais importante para todos. Agora, temos problemas maiores para resolver. No passado, falávamos sobre refugiados palestinos. Hoje, falamos muito mais sobre refugiados da Síria e do Iraque: são milhões de pessoas. Como muita gente em Israel, eu penso que o tema central desse conflito é a confiança necessária para estabelecer dois países em um território tão pequeno ; do tamanho do menor estado brasileiro, com população equivalente à de um bairro de São Paulo. Os israelenses precisam ter segurança de que os palestinos não vão, no dia seguinte, fazer acordos com o Irã e o Iraque. No passado, eles apoiaram muitas ditaduras do Oriente Médio. O dado positivo é que, hoje, em qualquer pesquisa de opinião, entre israelenses ou palestinos, 60% ou até 70% respondem que a solução de dois Estados é a única possível.

O que está em discussão
na agenda doméstica?
Como enfatizamos muito a identidade de Estado judeu, talvez muita gente pense que todos os israelenses são judeus, mas temos no país uma minoria árabe muito importante: ela soma 20% da população. Normalmente, um país considera importante uma minoria superior a 3%. A maioria dos árabes-israelenses é muçulmana, mas temos também cristãos, que se dividem entre católicos, ortodoxos, evangélicos; Os muçulmanos também têm variedade: os beduínos, no sul, têm costumes muito distintos das comunidades árabes do norte. Essa situação é muito complicada e delicada para nós. Trata-se de uma minoria que pertence a uma nação (árabe) de 300 milhões, em que a maioria é contra Israel. Ao mesmo tempo, somos um país democrático, e todos são cidadãos israelenses, desfrutam do nível de vida mais elevado do Oriente Médio. Mas quando temos um período de tensão com os países árabes, sentimos essa tensão dentro da sociedade israelense.

Como é a integração dos árabes na sociedade israelense?
É muito variada. Os druzos, a comunidade à qual pertenço, são muito integrados, prestam o serviço militar obrigatório de três anos ; por isso, temos muitos oficiais druzos, inclusive generais. Temos também embaixadores, ministros, parlamentares: atualmente são 12 ou 13, em um total de 120. Neste ano, pela primeira vez, todos os partidos árabes vão disputar a eleição com chapa única, e podem se tornar a terceira força da Knesset. É algo novo em Israel, muito impressionante.

Esta eleição resultará num parlamento ainda mais fragmentado?
Israel está sofrendo algo pelo que está passando a maioria dos países democráticos. Aqui no Brasil, hoje, temos 28 partidos no Congresso, não? Em Israel temos 14, num país com 8 milhões de habitantes! É muito mais difícil. Mas vemos o mesmo na Europa: o parlamento britânico, pela primeira vez, com um terceiro partido. Isso talvez seja produto da globalização, desse mundo capitalista individualista. Hoje é mais difícil reunir muita gente em partidos grandes. As pessoas querem construir partidos pequenos que representem grupos determinados. Isso é um desafio muito grande estabilidade.

Quais são as questões centrais na convivência entre os diferentes segmentos da população judaica?
Israel mudou muito ao longo da história. Começou como um país bem socialista, com muito poucos símbolos religiosos na política. Para mim, é muito estranho ver um crucifixo no Congresso aqui no Brasil, que é um país laico. Na Knesset, temos uma bandeira e um retrato de Theodor Herzl (o fundador do movimento sionista). Mas a sociedade está mudando pela demografia: as famílias laicas têm um filho ou dois; as religiosas costumam ter cinco ou seis. As comunidades ortodoxas crescem muito, e isso vai mudar a cultura israelense. Os ultrarreligiosos não vão para o exército, mas hoje eles são 20% da população. Eles também recebem subvenção do Estado para estudar a Torá. Há receita para continuar bancando isso? São perguntas de peso que estão colocadas nestas eleições.

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