O fim de um cemitério

O fim de um cemitério

Sem delimitação oficial, área com túmulos de 200 anos, na zona rural da cidade goiana, corre o risco de ser engolida por lavoura de grãos. Segundo o governo municipal, não haverá mais sepultamentos. Enterros ocorrerão em município vizinho

postado em 17/03/2015 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 13/3/15)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press - 13/3/15)

Nem os mortos têm descanso na Fazenda do Manga, zona rural de Cristalina (GO). O impasse dura 10 anos e o pequeno cemitério bicentenário corre o risco de ter seu espaço tomado pelo cultivo de soja. À frente de uma mata, que protege um córrego, as cruzes e os túmulos estão danificados. Foram destruídos pelo gado que pastou no local antes da safra. Ali, estão enterradas muitas gerações de goianos. Antônio Teodoro de Matos, 72 anos, luta para preservar a história do Cemitério do Manga. Debaixo daquela terra, estão os avós, pais, primos e alguns irmãos, entre outros familiares do agricultor. De lá para cá, o número de covas passou de 100. ;Eu quero ser enterrado aqui. Nesse chão, está toda a minha família;, argumentou Antônio. No entanto, segundo a Secretaria do Meio Ambiente de Cristalina, após a regularização da área, não haverá mais sepultamentos. Os mortos serão enterrados no município vizinho de Campos Lindos, a exemplo do que ocorre na cidade fictícia de Sucupira, da peça de Dias Gomes Odorico, Bem-Amado (veja Para saber mais).


Na Prefeitura de Cristalina, há um processo para a desapropriação do terreno para o município a fim de acabar com a disputa pela terra. Inicialmente, o parcelamento seria de uma área de 9.600 metros quadrados. Porém, Neri Amorim da Silva, apontado pela comunidade como dono do terreno, discordou do levantamento feito pelo governo e, por conta própria, avisou a José Alberto de Morais, topógrafo oficial, que contrataria um profissional para recalcular a área. ;Ele disse que achou a demarcação muito grande;, explicou o servidor. Os moradores da área contam que a demarcação chegou a ser feita, mas o fazendeiro teria mandado funcionários arrancarem os piquetes.


Neri e o filho Rafael Amorim da Silva se manifestaram pelo advogado da família, Nadimir Kaiser de Oliveira. Por telefone, o defensor disse que a área foi doada para a prefeitura há 20 anos e que, durante esse tempo, ficou abandonada. ;Ele vai cercar para o cemitério exatamente a área combinada. (Neri) Estava esperando a colheita terminar, o que aconteceu há duas semanas;, garantiu o advogado. Os moradores da zona rural ainda acusam o fazendeiro de não ser dono da terra onde está o cemitério. ;Ele foi chegando e pegando a terra aos poucos. Hoje, está engolindo as catacumbas;, afirmou o agricultor Osvaldo Alves de Souza, 59 anos, que tem boa parte da família sepultada no local.


O advogado rebate as suspeitas. Segundo ele, os proprietários têm escritura do terreno que aponta a área total de 505 hectares (o que equivale a 505 campos de futebol oficiais). ;Ele, de fato, é dono. Temos a documentação que mostra isso;, contestou Nadimir.

Versão oficial
O secretário do Meio Ambiente de Cristalina, Wanderlei Sebastião Meireles, assumiu que o projeto de regularização da área realmente está parado desde outubro do ano passado. Ele disse à reportagem que o caso teria andamento com uma visita, ontem, à área do cemitério. Mas Wanderlei não foi ao local. ;Vou pessoalmente conversar com o suposto dono da propriedade e com os moradores da região. Vamos encontrar uma solução para que as construções existentes sejam preservadas;, garantiu. Novos sepultamentos não serão permitidos no local. ;A partir do momento em que tudo estiver regulamentado, não vamos enterrar mais pessoas ali. Quem morrer vai ser sepultado em Campos Lindos;, esclareceu.
Sobre o abandono da área, o secretário justificou que, durante muito tempo, a pasta estava sem recursos para monitorar e fazer a manutenção do local. ;Não temos muitos servidores, e o orçamento limitado dificulta certas ações;, afirmou.

História
Os mais antigos contam que o primeiro a ser enterrado naquela região e que, portanto, deu origem ao cemitério, foi um padre, cujo nome se perdeu no tempo. Desde então, os mortos, que antes eram sepultados no fundo do quintal das casas, passaram a ser levados para a área do túmulo do religioso ;para ficarem mais próximos de Deus;. Surgia o Cemitério do Manga, território que cresceu com o sepultamento dos mortos de Jardim 2, Cabeceira do Chiquinho, Porções, São Bernardo e vilarejos antigos do extremo sudeste do Distrito Federal, na divisa com Goiás e Minas Gerais.


;Meu avô, quando eu era menino, contava histórias de gente que foi enterrada aqui. Não podemos deixar esse pedaço do povo daqui ser engolido pela lavoura;, clamou Antônio. O colega Osvaldo concorda. ;A família da gente está aqui. Quem não tem ligação com isso aqui não sabe o quanto é dolorido ver o que está acontecendo;, reclamou o agricultor.

Ex-território do DF
A área do cemitério fica dentro da antiga Fazenda do Manga, que, durante décadas, pertenceu ao Distrito Federal. Nos mapas mais recentes do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, ela já não consta como área do DF. Hoje, está em terras de Cristalina (GO). O mais provável é que, com a delimitação do quadrilátero, a fazenda tenha se dividido entre Goiás, Minas
Gerais e DF.

Terra dos cristais
Cristalina (GO) fica a 132km de Brasília. A cidade do leste goiano, fundada em 18 de julho de 1916, é conhecida pelo minério de cristal. As pedras, por sua qualidade, foram bastante exportadas para a Europa como peças de decoração, em joias e artigos de artesanato. De acordo com o Censo IBGE 2013, na região há 51mil habitantes. Atualmente, o município é destaque nacional na produção de grãos e a economia fortalecida coloca a cidade como uma das maiores geradoras de emprego de Goiás. Milho, trigo, alho, cebola, batata e café estão na lista de produção da cidade.

Para saber mais

De vilão a mártir
Odorico Paraguaçu é o prefeito de Sucupira conhecido por sua obsessão em inaugurar o único cemitério da cidade. A construção era a principal promessa de campanha eleitoral, já que, sempre que morria alguém em Sucupira, o corpo devia ser levado para a cidade vizinha para ser enterrado. O problema de Odorico é que, após a inauguração do cemitério, ninguém morria. Desesperado com a situação, toma iniciativas macabras para concretizar a promessa, provocando cômicas situações. No fim, Odorico Paraguaçu é morto por Zeca Diabo e inaugura o cemitério. De vilão, passa a mártir.

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