A história como ela é

A história como ela é

postado em 17/03/2015 00:00

Jeferson Tavares é, muito provavelmente, o cara que mais estudou as circunstâncias do concurso para a escolha do Plano Piloto de Brasília. Liberto das afeições ideológicas ou da mitologia oficial, ele pagou para ver e escarafunchou gavetas, versões consagradas e feridas cicatrizadas para reconstituir como se deu, afinal, a escolha do projeto de Lucio Costa para a nova capital.
No portentoso volume que o Iphan lança hoje em Brasília, Jeferson Tavares esclarece, até onde os limites da reconstituição histórica permite, os acontecimentos daqueles primeiros meses de 1956, quando se deu o concurso para a escolha do projeto. E não apenas: o pesquisador vai buscar os primeiros croquis apresentados para a nova, porém incerta, capital do país. O mais antigo deles, de 1927.


Ou o de Carmen Portinho, apresentado em 1936 como tese para obtenção do título de urbanista da Universidade do Distrito Federal. Carmen era mulher de um dos luminares da arquitetura moderna, Affonso Eduardo Reidy, que se recusou a participar do concurso do Plano Piloto, em 1956, por desconfiar da lisura do processo. Acreditava que era um jogo de cartas marcadas. Foi a própria Carmen Portinho quem revelou essa percepção do marido: ;O Reidy não contestou, não se meteu, não queria saber de uma coisa que sabia como ia acabar;. (página 118).


O pesquisador abre três frentes: demonstra a longevidade do desejo de transferência da capital, a partir da história dos projetos arquitetônicos apresentados mesmo antes de Juscelino decidir pela mudança da capital, desmistifica a ideia de que a escolha do projeto de Lucio Costa foi uma plácida unanimidade, e mostra que vários dos demais projetos tinham consistência e méritos para vencer o concurso.


Um dos participantes do concurso, Jorge Wilheim, disse em entrevista ao pesquisador: ;O julgamento do concurso foi muito conturbado. Tanto que o IAB abandonou o julgamento, além de uma série de coisas. O meu projeto, na realidade o pacote, os relatórios, e tudo jamais foram abertos. Ele foi devolvido fechado do jeito que eu entreguei. As pranchas foram expostas.;
;É assim que mexer em tal vespeiro historiográfico ; escreve Carlos Roberto Monteiro de Andrade, no prefácio ; exigiu de Tavares não apenas coragem, mas, sobretudo, um estudo aprofundado das circunstâncias em que se deu aquele concurso.; Desse modo, o pesquisador demonstra que ;tínhamos muitas soluções possíveis para Brasília, tão interessantes quanto a vencedora, e algumas talvez ainda mais amparadas teoricamente, como este livro agora mostra;. Jeferson Andrade analisa, com minúcia, os projetos aos quais conseguiu ter acesso.


O livro que o Iphan lança hoje à noite, Projetos para Brasília 1927-1957, é ambicioso: recupera 32 projetos de nova capital do Brasil e os vincula à busca de uma identidade nacional. Mostra a opção do júri por um projeto de filiação modernista, a influência decisiva de Oscar Niemeyer no julgamento e abre as feridas da história. Dói, mas faz bem.


Hoje, 17 de março, completam-se 58 anos do concurso do Plano Piloto. O lançamento do livro será no Cine Brasília, às 19h.

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