Quem vai ficar com Nasr?

Quem vai ficar com Nasr?

É normal Nasr ser uma estrela e um ilustre desconhecido na pátria de chuteiras (de raquetes, de luvas, de capacetes... Tudo depende da febre sazonal)

ALEXANDRE BOTÃO
postado em 17/03/2015 00:00
 (foto: Bruno Fortes/CB/D. A Press - 21/10/08)
(foto: Bruno Fortes/CB/D. A Press - 21/10/08)



Gentileza capturar um post-it e rabiscar os seguintes nomes: Karun Chandhok, Patrick Friesacher, Ralph Firman, Robert Doornbos e Yuji Ide. Trinta segundinhos, eles retornam.

Mais de 48 horas depois do quinto lugar no GP da Austrália, o rookie Felipe Nasr segue ziguezagueando na opinião alheia. Há quem ache que ele é o novo Senna. Há quem jure que é o novo Piquet (o filho). E há quem acredite que se trata do novo Medina. (Evite o bullying: o ;Filipe; do surfe chama Toledo).

É normal Nasr ser uma estrela e, ao mesmo tempo, um ilustre desconhecido na pátria de chuteiras (de raquetes, de luvas, de capacetes; Tudo depende da febre sazonal). Se ele desembarca na F-1 com um cheque do banco na mão, é piloto pagante. Mais um. Maldonado brasileño. Se estreia com pontos, eis a nova esperança do Brasil. Hoje sim, hoje sim;

Não é por mal. Apenas almeja-se resposta precisa (na velocidade de um tuíte, por favor): afinal, qual o destino de Nasr? Mediocridade? Glória? Um limbo entre as duas coisas por onde vaga o xará muito Massa?

Antes das verdades definitivas, é melhor enterrar na poeira dois ou três clichês. O mais recorrente ensina (equivocadamente, claro) que todos que ali estão fazem parte de uma casta de ;gênios;. Você? Não consegue nem tirar o carro da ;garagem;. Eu não consigo mesmo, mas conheço uma turma que tira fácil. Apanhe seu post-it aí: Karun Chandhok, da Índia, Patrick Friesacher, da Áustria, Ralph Firman, da Inglaterra, Robert Doornbos, da Holanda, e Yuji Ide, do Japão. Foram todos pilotos de Fórmula 1. Correram provas. Neste século.

Outro clichezão é que o desempenho de Nasr, enfim, afasta o fantasma de piloto pagante. Nova baboseira. Maldonado chegou a ganhar uma corrida e nunca exorcizou muita coisa. Bruno Senna torrou 18 milhões de euros na Williams, foi embora e ninguém se lembra da nota promissória.

O terceiro martela esta história de melhor estreia de um brasileiro. Nem precisa abrir o Google: Kevin Magnussen, no ano passado, estreou com um pódio na Austrália ; a Dinamarca na ponta dos dedos, presumo. Acabou a temporada em 11; e só foi à pista neste ano porque Alonso se acidentou.

Nasr tem duas qualidades importantes (deve ter várias, mas foco, foco;). Primeiro, ele se preparou de todas as formas para estar ali, tecnicamente, fisicamente e mentalmente. Nas (muitas) vezes em que repetiu o dogma, convenceu: tem total consciência do que faz lá dentro. Depois, entendeu que a F-1 é feita de brechas, e que elas não existem para se ponderar a respeito. Foi assim quando se espremeu ali na largada e, do mesmo modo, quando passou a Toro Rosso por fora na relargada.

O resto se resume a sorte e administração da carreira. A(s) história(s) ensina(m). O italiano Giancarlo Baghetti figura como o único piloto, em 65 anos de F-1, a ganhar na estreia. Nunca mais venceu nenhuma. Fernando Alonso, um dos três grandes da atualidade, corre o risco de ficar com apenas dois títulos na vida porque não encontra um cockpit à altura do talento desde 2008. E o alemão Nick Heidfeld surgiu como promessa em 2000, alinhou para 183 GPs na carreira e nunca soube o que é terminar em primeiro. Seus recordes: maior número de pontos sem ganhar uma corrida, maior número de pódios sem ganhar uma corrida e maior número de segundos lugares sem ganhar uma corrida.

No esporte, há recordes e recordes. E, hoje, é simplesmente tolice querer adivinhar qual deles Nasr vai alcançar.

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